Constantinopla-33

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    Mamãe finalmente ancorou a decisão.
    – Agradeço muito a todos vocês e em especial à Suzana, que durante muitos anos não conseguia senti-la como uma verdadeira filha, mas agora sei que ela é tão minha filha quanto todos vocês.
    Suzana olhou para ela com um carinho indescritível e a abraçou com tanto amor, que confesso fiquei enciumado, no momento, a cena me remeteu a algo escondido em um passado tão distante que minhas lembranças não retiveram. Isto passou da mesma maneira que veio, em uma fração de tempo muito reduzido.
    Chamamos todas as crianças maiores, Armanide, Túlio e Germano, enquanto mamãe e Suzana cuidavam dos pequenos.  Eu, Antron e Lucius sentamos à mesa, ladeados por eles. Conversamos sobre o que havia ocorrido e dissemos que Tia Miriam tinha ido embora e não mais voltaria, por isso, todos deveriam concordar em ajudar os primos e talvez eles tivessem que ficar aqui em casa enquanto Tio Antron trabalha fora.  Esta conversa aconteceu a meu pedido, pois para nós dois, eu e Suzana, era muito importante que as crianças participassem e concordassem com qualquer alteração na rotina da casa que afetasse à vida deles.
    Antron de inicio se opôs, dizendo que não haveria necessidade, pois eram muito pequenos e nessa idade deveriam obedecer o que os pais determinam, mas me mantive inflexível, meu irmão acabou cedendo.  Lucius não se manifestou contra, ouviu o meu pedido e meneou a cabeça em sinal de concordância.
    Após as primeiras explicações e meu pedido de colaboração, Armanide falou:
    – Finalmente, Caio, Lísias e Ana ficarão conosco, pois eu e Túlio já tínhamos dito à Caio que eles deveriam se mudar para nossa casa, porque ele contou que Tia Miriam não gostava deles e desde que ele era pequeno o obrigava a cuidar de Lísias sem reclamar.
    Nós três nos olhamos perplexos.  Eu me dirigi a minha filha calmamente como se o assunto fosse algo trivial.
    – Filha, porque vocês não disseram nada ao papai e a mamãe sobre o convite que fizeram à seus primos de que eles deviam se mudar para nossa casa?
    – Porque Tia Miriam havia dito a Caio que se ele contasse a alguém, o jogaria no mar para ser comido pelos peixes, como aconteceu com nosso avô, por isso guardamos segredo.
    Túlio prosseguiu:
    – Caio nos contou que as suas roupas era ele que lavava, por isso não podia brincar na terra para não sujar.
    Neste momento, Antron não se conteve:
    – Meninos, parem!  Titio está passando mal!
    Eu o fitei com ar de reprovação e solicitei que Lucius o levasse para o lado de fora da casa. Pedi que Túlio continuasse.
    – Eu, Armanide e Germano sabíamos que um dia eles viriam morar conosco, pois pedimos ao Grande Deus que fizesse com que Tia Miriam fosse morar em outro lugar.
    Terminado o relato, eu olhei para os três e pedi que me dessem sua opinião quanto a possibilidade de seus primos passarem o dia em nossa casa, pois apesar de Tia Miriam ter se mudado, a casa deles continuaria sendo a mesma, pois Tio Antron era o pai deles e responsável pela educação dos três.  Já sabia a resposta, pois antes de terminar minha explanação, os três se olharam com ar de vitória e a seguir gritaram em coro:
    – Concordamos!
    Na manhã seguinte, me levantei como de costume.  Antron dormia pesadamente e para não acordá-lo, pois tinha certeza que tinha passado à noite em claro, me despedi de Suzana e saí pé ante pé.
    Fui primeiro à beira do rio para avisar Múrcio que não iríamos pescar hoje. Ele não havia chegado ainda, foi Tibério que me recebeu e antes que eu dissesse qualquer coisa se antecipou:
    – Aimanon, como você sabe, minha esposa é filha de sua Tia Letizia e nós já sabemos que Miriam abandonou seu irmão.  Ontem à tarde ela chegou em nossa casa com todos os seus pertences, pedindo que permitíssemos que dormisse lá esta noite, pois sua mãe havia dito que jamais a acolheria de volta, caso não suportasse à vida de casada.
    Sentei-me no chão aturdido e pedi que ele me relatasse tudo que sabia a respeito do passado de minha cunhada.
    – Aimanon, existem segredos de família, que nós, os agregados, não podemos interferir. Quando Antron decidiu casar-se com Miriam, eu, por muitas vezes fui tentado a revelar o que sabia, mas minha esposa Maila me impediu, pois dizia que ela poderia melhorar casando-se com um rapaz trabalhador e de boa formação.  Mas agora me sinto à vontade de lhe contar tudo, até para que seu irmão não carregue qualquer tipo de culpa com o que aconteceu.
    Tibério deu um profundo suspiro e prosseguiu.
    – Miriam, na verdade, não é filha de Dona Letizia, e sim, supostamente de seu falecido marido Armon.  Ele nunca abandonou a necessidade de se relacionar com mulheres de qualquer espécie, minha sogra sofreu muito durante os vinte e cinco anos que permaneceu casada, apenas seus filhos, sabiam do que ocorria dentro de sua casa, e em particular, minha esposa Maila, que é a mais velha.  As suas irmãs, inclusive sua mãe Dona Linizia, jamais souberam absolutamente nada.  Minha sogra já tinha três filhos : Maila, Rute e Iane, quando engravidou de sua quarta filha, que nasceu morta.  Na mesma noite que a bebê nasceu, Maila ouviu baterem à porta e quando foi ver quem era, encontrou um bebê sozinho, uma menina recém-nascida, colocada desajeitadamente em uma caixa de madeira com um bilhete escondido entre as roupas, que dizia:  “Letizia, meu nome é Miriam, sou filha de seu marido Armon e de uma prostituta que não merece nem ao menos amamentar-me.  Peço que me recolha, pois caso contrário só me resta à morte.”
    – Maila não sabia o que deveria fazer, a única coisa que lhe ocorreu foi guardar o bilhete e entregar o bebê à sua mãe, dizendo que os Deuses a haviam presenteado com outra filha, para substituir a que tinha nascido morta.  Letizia ficou imensamente feliz e aceitou a bebê como sendo sua.  Seu marido Armon e suas  irmãs nunca souberam de nada.  Apenas Maila e Rute estavam presentes quando sua mãe começou a sentir dores,  elas a deitaram na esteira e em seguida a bebê nasceu morta. Enquanto Rute retirava a placenta, Maila foi atender à porta.  Dona Letizia ainda chorava, quando Maila entrou com a bebê e tudo prosseguiu como se nada houvesse acontecido. Minha esposa e sua irmã sempre acreditaram que a outra menina era a mesma que morreu, jogaram o corpo no mar e jamais contaram a ninguém.
    Eu ouvia aturdido, milhares de imagens confusas me vinham à mente, mas pedi que prosseguisse o relato.
    – Fiquei sabendo, quando um dia, procurando uma caixa de anzóis perdida, mexi no baú onde minha esposa guardava seus pertences e encontrei o bilhete.  Nesta época, estávamos casados a dois anos, meu sogro já havia falecido e Miriam estava com dez anos.  Pedi que me explicasse o que aquilo significava, e ela, sem alternativas, me contou toda a história.
    – Durante vários anos remoí aquele segredo horrível, apesar de Maila afirmar com toda convicção que ela era sua irmã e a mesma menina que havia nascido morta, eu sabia que não era verdade, mas tentei esquecer o assunto para não gerar sofrimento inútil.

continuação…

 

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