Constantinopla-34

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    À medida que Miriam crescia, era gritante o comportamento egoísta e sem nenhum respeito pelo carinho que Dona Letizia dispensava à sua “filha caçula”.  Ela a agredia verbalmente e as vezes fisicamente, só se contendo, quando Maila e Rute interferiam, mas mesmo assim, afirmava que minha sogra era má e a obrigava a fazer tarefas que jamais se sujeitaria.  Até os quatorze anos passava os dias cuidando de seus cabelos e de suas unhas, sempre que podia fugia para o porto.  Tudo isto era guardado à sete chaves pelas três, pois sua tia não queria que todos achassem que ela tinha sido uma mãe relapsa e fracassado em sua criação.
    Tibério continuou:
    – Quando Antron a pediu em casamento, ela não queria aceitar, pois dizia que não o amava e não queria se casar com ninguém e muito menos ter filhos.  Neste dia, Maila, Rute e Dona Letizia conversaram longamente com ela dizendo que o destino de toda mulher é formar uma família e que Antron era um rapaz trabalhador e com certeza breve lhe proporcionaria uma vida tranquila e sem necessidade de se voltar ao trabalho doméstico.  Pelo que sabiam, Catarina morava com você e Suzana e poupava sua esposa de todos os serviços da casa, com certeza, uma de suas irmãs mais novas também iriam morar com ela e Antron e fazer o mesmo.
    Neste ponto do relato, o interrompi.  Com ânsia de vômito, meu estômago revirava e só melhorei quando me aliviei no rio.  Que história mais triste!  Como pode um ser humano querer delegar suas tarefas a outros?
    Após esta breve interrupção, pedi que prosseguisse:
   – Desta maneira, ela foi convencida e se casou,  após um mês do casamento, ela foi até nossa casa e disse para Maila que iria abandonar Antron, pois esta vida não era para ela.  Minha sogra, quando soube, foi taxativa dizendo que se Miriam fizesse isso jamais poderia voltar a morar com ela, a porta de sua casa estaria definitivamente fechada para minha cunhada.  Foram sete anos de silêncio absoluto, as três crianças nasceram, ela mandou avisar que não queria visitas, então nos afastamos.  Como eu convivia diariamente com você e Antron e ele nunca dizia absolutamente nada, pensávamos que ela, finalmente havia assumido seu papel de mãe e esposa.  Isto, até ontem, quando Miriam chegou, trazendo todos os seus pertences.
    Múrcio chegou neste momento e interrompemos nossa conversa, mas muito ainda precisava ser dito.  Antecipei ao pescador que eu e Antron não iríamos pescar naquele dia, me despedi dos dois e me coloquei a caminho da casa de Catarina.  Após alguns minutos, percebi  que Tibério também não tinha ido pescar e tentava me alcançar, quando conseguiu, disse:
    – Aimanon, ontem à noite conversei muito com Maila e ela sabe que hoje iria te contar toda a história de Miriam, pois sabíamos que poderia nos ajudar e nos dizer o que fazer.  Antron foi enganado por nossa família, e você como sendo seu irmão, pode acalmá-lo e oferecer nossos préstimos, inclusive de ajudar na criação dos meninos.  O que não queremos é levar este segredo para o túmulo.
    Eu refleti um momento e pedi que o Grande Deus me desse uma solução para esta tratativa tão complexa e ao mesmo tempo tão pessoal.  À principio, desejei apenas me manter focado nas conseqüências dos atos de Miriam e não me envolver nas causas, mas quando ouvi a resposta de Uruãn soube que minha postura deveria ser outra.
    – Aimanon – falou meu amigo – Miriam apenas quita débitos contraídos no passado, quando em uma existência foi levada à prostituição apenas por falta de sentimentos edificantes.  Seu pai, cuidava dela com muito amor e ela o menosprezava por ser pobre e velho.  Um dia, conheceu um mercador rico que a retirou da vida fácil e a tratou como rainha, casando-se com ela e a instalando em uma mansão na Grécia.  Mentiu para ele dizendo que não tinha família, partiu, sem mesmo se despedir de seu velho pai, que morreu à mingua de desgosto pelo ocorrido.  Este mesmo espírito, que naquela época respondia pelo nome de Celeno, nesta se chamava Armon, e nas duas foi seu pai.  Todos os acontecimentos da vida de Miriam após a concepção foram oportunidades de resgate: a mãe carinhosa, as irmãs amigas, o marido apaixonado, os filhos dedicados.  Aparentemente, ela jogou tudo a perder, e segundo o que seu subconsciente lhe pede, quer ir para Grécia de encontro a uma vida que povoa suas mais recônditas lembranças, onde só havia festas, bebidas e libertinagem, mal sabe ela que após seu casamento, viveu mais vinte anos na mais perfeita solidão, apesar de ter conseguido tudo que sempre desejou.  Seu ultimo pensamento, foi dirigido àquele velho pai que lhe deu algo que nunca encontrou longe dele: o amor sincero.
    Neste momento, estávamos eu e Tibério, um diante do outro e ele aguardava de mim, algum conselho que eu ainda não sabia qual seria.  Pedi que sentasse e aguardasse um pouco, pois precisava orar ao Grande Deus.  Ele assentiu com a cabeça e sentou-se, me acomodei ao seu lado, fechei os olhos e Uruãn prosseguiu:
    – Nada do que te disse agora deverá ser revelado a ninguém, pois isto é apenas para que entenda que as atitudes e os sentimentos de hoje são conseqüências de antigos momentos vividos em outras vidas, mas o Grande Deus é tão bondoso que jamais deixa de ofertar novas oportunidades.  É o que ocorreu com Miriam nesta vida, mas até agora ela rechaçou este gesto de cuidado do Pai.
    Perguntei a Uruãn o que deveria dizer a Tibério.
    – Este segredo que Maila guarda a tantos anos deverá ser revelado hoje, peça que Tibério vá até sua casa, diga a sua esposa que chame Letizia e Rute e sozinha com as três, revele tudo que ocorreu no dia do nascimento de Miriam e mostre o bilhete.  Depois vá até à casa de Menéas e aguarde até as dez horas e após este horário, prossiga com o que pretendia fazer, vá até à casa de Catarina e após ao Templo conversar com Claudia.  Leve as duas para casa de sua mãe.
    Tibério se mostrava ansioso e quando disse o que deveria fazer. Respondeu aliviado:
    – Obrigado Aimanon, isto é o mais correto. Miriam tem o direito de saber sua verdadeira história e será um peso retirado dos ombros de Maila.
    Levantou-se rapidamente e se foi.
    Fiquei mais alguns minutos pedindo que tudo corresse bem e Miriam pudesse entender e agradecer o quanto tinha sido agraciada com a bondade Divina.  Fui para casa do rio, neste momento me ocorreu apenas descansar um pouco para recuperar a noite mal dormida e aguardar a hora de ir à casa de Catarina.
    Dormia profundamente, quando ouço bater à porta, me levantei meio zonzo e quando vejo quem era, me surpreendo.  Miriam, sozinha, falou com um leve sorriso nos lábios:
    – Aimanon preciso conversar com você.
    Pedi que entrasse e sentasse na mesa, sentei-me à sua frente e percebi que algo naquela mulher havia mudado.  Miriam começou a falar, como se tivesse uma grande necessidade de desabafar:
    – Você já deve saber tudo que aconteceu conosco.  Eu deixei Antron e as crianças, pois não suportava mais aquela vida sem sentido.  Hoje pela manhã, minha irmã Maila me disse que não sou o que sempre imaginei que fosse e talvez seja sua meia irmã, filha apenas de nosso pai.  Mas esta história não me causou nenhum impacto, pois foi até bom saber que não era filha de Letizia, pois, por mais que insistisse em ser bozinha, eu sabia que não era sincera.  Vim até aqui, porque Tibério disse que não tinha ido pescar e precisava que você desse um recado a Antron.

continuação…

 

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