Constantinopla-35

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    – Diga a ele que nosso casamento foi um erro.  Sinto muito por tê-lo feito perder tantos anos de sua vida.  Esta tarde pego a embarcação e vou para Grécia para não mais voltar.  Diga também à sua mãe que ela é a única pessoa daquela família que sentirei saudades.
    Levantou- e saiu.
    Fiquei aturdido, nenhuma palavra para as crianças, nada.  Como pode alguém ser tão misterioso à ponto de contrariar todas as leis naturais. Após alguns minutos, chegou Tibério e Maila, vieram me agradecer pela orientação de revelar à Miriam aquele segredo que se tornara um pesado fardo.
    – Obrigado Aimanon – disse Maila – nós ficamos aliviados em nos livrarmos deste horrível sentimento de débito para com Miriam e minha mãe, mas ao mesmo tempo surpresos com a reação das duas.  Mamãe, não sei como, já sabia que Miriam era filha de papai, e minha irmã, por sua vez, não demonstrou nenhuma revolta, pelo contrário, parece que ficou feliz em saber que não era nossa irmã por parte de mamãe.
    Tibério completou:
    – Pedimos que Miriam viesse até aqui e demonstrasse uma atitude decente de pelo menos pedir para que você levasse a Antron sua decisão de morar na Grécia e nunca mais voltar.  Assim as crianças saberiam que esta decisão partiu da mãe deles e não ocorreu o contrário.
    Se despediram e partiram.  Fiquei só com Uruãn, que completou:
    – Meu amigo, não tente entender o que se passa na mente dos outros, pois cada um tem sua própria história e reagem de acordo com o que já sabem e vivenciaram.  Miriam terá novas oportunidades, e um dia, quem sabe, aprenderá a valorizar a família e o amor que recebe sem compromisso de retribuir.  O fato de dizer que sentirá saudades de Linizia, sua mãe, já é o primeiro passo.  Agora vá e complete suas obrigações.
    Me arrumei rapidamente e fui até a casa de Catarina, ela se surpreendeu pelo fato de estar no horário de minha pescaria habitual.  Me beijou e abraçou, como só ela sabia fazer, me trazendo enlevo e emoção. As crianças brincavam no quintal, Josias o mais velho, tinha três anos e Rita ainda não tinha completado dois anos.  Entramos na sala ampla, arrumadíssima, toda ornada com flores frescas, recém colhidas.  Minha irmã, como sempre, foi preparar o chá de melissa, que só ela sabia fazer tão reconfortante.  Me contou que Ahimon já estava trabalhando no mercado, onde comercializava os peixes que seu pai pescava.
    Não foi fácil entrar no assunto, pois Catarina sempre valorizou a família, acima de tudo, e quando Antron disse que iria se casar com Miriam, a sete anos atrás, ela se colocou contra a decisão terminantemente, a ponto de eu e Suzana precisarmos interferir.  Me lembro como se fosse hoje, ela aos prantos nos dizendo:
    – Aimanon, será que você não entende ? Ele não vai ser feliz com ela!
    – Como você sabe?  Retruquei impaciente.
    – Não sei como sei, mas a única coisa que precisamos fazer é impedir que ele faça esta loucura.
    Pela primeira vez, ergui a voz com minha irmã e pedi que ela parasse com aquele ciúme de criança e que eu a proibia de tocar no assunto com Antron ou quem quer que seja.  Quem decidia o que era melhor para a vida dele, era ele mesmo.
    Pensando nisso, titubeei, queria estar naquele momento em qualquer outro lugar, menos diante de Catarina e prestes a ter que me mostrar mais insignificante que a intuição de um médium, que  é regida pela vontade do Grande Deus.
    Catarina me olhava ansiosa, aguardando que eu dissesse o que me trouxe à sua casa em um horário tão inusitado e no meio da semana.
    Comecei gaguejando.
    – Catarina, preciso que vá hoje até à casa de mamãe, vamos fazer uma reunião e você deve estar presente.
    Ela se assustou, pensando que pudesse ser algo relacionado com mamãe.  Eu a acalmei completando o assunto:
    – Miriam abandonou definitivamente Antron e as crianças, precisamos nos unir para auxiliá-lo neste momento delicado.
    –  Então é isso Aimanon? – disparou Catarina – Sabia que isto um dia ia acontecer, orei muito para que ocorresse antes que as crianças viessem, mas como elas já estão aí, é lógico que temos que nos unir e ajudar Antron a criá-las.
    Simples e objetiva – era por isso que a admirava profundamente.  Nunca guardava mágoas, nem ficava remoendo o passado, com ela era assim: apresentando-se o problema, busca-se a solução.
    Catarina deixou as crianças com Lucia, avisamos Ahimon no mercado e fomos até o Templo Sagrado, conversar com Claudia.  Ela assentiu prontamente e nós três, como nos velhos tempos, colocamos-nos a caminho da casa de mamãe.  Lá chegando, encontrei Antron, Lucius, vovó, Triciana e Mirna.  Todas as crianças ficaram em casa com Suzana, inclusive Caio que tinha sido levado por minha irmã mais nova, pois chorava intermitentemente querendo o pai. Agora estava tranqüilo brincando com meus filhos.
    Esta noite, Suzana me pediu para não participar da reunião, pois este assunto deveria ser tratado apenas por minha família, mas que ela reiterava seu oferecimento de cuidar das três crianças, enquanto Antron estivesse trabalhando.
    Meus irmãos e eu sentamos à mesa, enquanto vovó nos observava deitada na esteira e mamãe preparava o chá.  Catarina como sempre, foi a primeira a se manifestar:
    – Antron, este momento é novo para sua vida, e também muito difícil. Precisamos te dizer que esta não é uma tarefa só sua, mas nossa, por isso estamos aqui, criar filhos é a mais importante de todas e deve ser cumprida da maneira mais perfeita possível.  Sozinho, é praticamente impossível, portanto, nós, seus irmãos, nos oferecemos incondicionalmente para ajudá-lo.
    Meu irmão, com lágrimas nos olhos respondeu emocionado:
    – Passado o impacto das primeiras horas, estou agora mais sereno e certo que Miriam fez o que deveria, pois ela não cumpria o que a maternidade exige e o sofrimento de nossos filhos remetia a algo inadmissível.  O que mais me trouxe à luz do entendimento foi a revelação de meus sobrinhos, Armanide e Túlio, que meus filhos Caio e Lísias gostariam de se mudar de nossa casa.  Isto foi uma facada em meu coração e ao mesmo tempo uma luz que neste momento ilumina minha mente e me faz concluir que o Grande Deus realmente auxiliou minha família dando uma oportunidade a todos, inclusive a Miriam, de conseguirmos o que queríamos.  Eu gostaria de dizer que me sinto profundamente aliviado, nada do que aconteceu me trouxe tristeza, muito pelo contrário, estou pronto para recomeçar, sem precisar sentir que não estou conseguindo cumprir com meus deveres, pois este foi o sentimento que me acompanhou durante este sete anos, mesmo antes de Caio nascer, é muito difícil conviver com alguém insaciável, que nada que recebe é o suficiente.  Isto foi uma grande lição de humildade que recebi.
    Acompanhando o desabafo do meu irmão, me veio claramente à mente a imagem de Miriam partindo – Está no porto prestes a embarcar, seu semblante não atesta o menor sinal de felicidade, pelo contrário, está carregado e contraído.  Tudo que sempre quis está prestes a acontecer, mas a insatisfação é algo que faz parte de sua vida, nunca se libertará dela enquanto não valorizar o amor.
    Mamãe serviu o chá a cada um de nós, com lágrimas nos olhos.  Tenho certeza que neste momento ela fazia um balanço de sua vida e agradecia aos Deuses pela união que ela e papai plantaram em nossos corações e que fazia com que a dificuldade de um era problema de todos.

continuação…

 

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