Constantinopla-36

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    Lucius, no tom de brincadeira de sempre, falou :
  – Manos, eu, Mirna e Triciana vamos ajudar a lavar as roupas, ainda não temos competência para trocar fraldas, nem dar remédio para dor de barriga.
    Todos riram da brincadeira.  Triciana que já tinha treze anos, completou sorrindo:
    – É isso mesmo, a roupa suja nós lavamos, é só Antron fazer uma trouxa, trazer até aqui que nós três fazemos isto, não é Mirna e Lucius?
    – Sim! Responderam os três.
    E assim, cada um se incumbiu de uma tarefa.  Catarina se prontificou de vir uma vez por semana limpar a casa.  Claudia disse que quando Antron voltasse da pescaria passasse todos os dias no Templo que ela deixaria pronto um bornal com comida.   E ficou acertado que todas as manhãs, Antron levaria as três crianças para minha casa e buscaria no final do dia, elas jantariam com ele todos os dias a comida que Claudia enviaria.  Mamãe, Mirna e Triciana se comprometeram em se revezar, cada dia, uma deles viria à nossa casa para ajudar Suzana, e nos fins de semana Lucius ajudaria Antron com os cuidados no jardim e nas arrumações mais difíceis, como consertar as paredes que já ameaçavam cair, tarefa esta, que eu também iria ajudar.
    Finda a reunião, todos se despediram felizes, ninguém ficará sobrecarregado e Antron prosseguirá criando seus filhos sem se sentir com excesso de afazeres.  Em casa, informei Suzana do que foi decidido, ela ficou feliz.
    – Aimanon – disse Suzana – o Grande Deus jamais desampara.  Quando fecha uma porta, abre outra, feliz daquele que aceita e acredita em sua ajuda.
    Os próximos dias foram de ajustes, no começo minhas crianças ficaram um pouco enciumadas por terem de dividir sua mãe com os primos, mas depois de uma semana todos estavam felizes e visivelmente amigos, cúmplices nas brincadeiras e peraltices. Lucius viu sua vida se transformar, todos os dias, antes de trabalhar, trazia as crianças para nossa casa, pois Antron saia muito cedo e elas ainda dormiam e desse modo Lucius praticamente se mudou para casa de nosso irmão.  Senti que ele abraçou o problema com todas as suas forças e mostrou o quanto é solidário e ama seus sobrinhos. Armanide amadureceu muito com todos estes reveses.  Sentia-se responsável em ajudar a mãe em cuidar das crianças menores, tornando-se seu braço direito.
    Devido a todos estes acontecimentos a primeira visita que faríamos às famílias da periferia foi adiada para o próximo mês, ficou acertado que Armanide iria conosco, pois quando soube do convite do primo, pulou de alegria e Suzana ficou sem argumentos para se colocar contra.  O mês passou rápido, Antron se adaptou à nova rotina sem maiores dificuldades.  Cuidava das três crianças como uma mãe dedicada e elas nem tão pouco perguntaram para onde tinha ido a mãe verdadeira.
    O sábado anterior à visita que faríamos foi de muitos preparativos, eu e Artur nos reunimos, ansiosos para que tudo transcorresse bem, pois temíamos que fossemos recebidos como intrusos sem convite.  Ajeitamos alguns papéis que iríamos entregar aos pais, dissertando sobre o valor da família e dos bons princípios.  Artur não queria que isto tivesse alguma conotação que induzisse a pensar que pretendíamos convencê-los à mudar sua crença.  A idéia era convidá-los a frequentar o Templo Sagrado sem tocar nas convicções de cada um.  O fato de Armanide e Nuno nos acompanhar se tornava algo positivo, pois indicaria que nós somos pais de família como todos eles.
    No domingo, quem nos acordou foi Armanide, dizendo que estávamos atrasados, pois a cabra já mugia pedindo para ser ordenhada.  Suzana, ainda sonolenta, falou:
    – Filha, hoje é domingo e não precisamos acordar tão cedo, pois papai combinou com Tio Artur que vocês sairão somente depois que o dia amanhecer, portanto volte a dormir, pois a cabra mugiu porque deve estar sonhando.  Armanide voltou a dormir meio a contragosto pois estava ansiosa para fazer algo que fugia da rotina diária.
    Após um farto café da manhã, nos pusemos a caminho.  Ela carregava um bornal pequeno com lanche e uma pasta à base de argila e mel que Suzana pediu que usasse para proteger sua pele alva do sol escaldante. Ao vê-la, Nuno a abraçou como se fossem velhos amigos que não se encontravam à muito, Claudia e Artur nos receberam com muito carinho, minha irmã falou se dirigindo à Armanide:
    – Querida, muito obrigada por vir, tenho certeza que você e Nuno ajudarão muito seu pai e Tio Artur.
    E foi o que aconteceu, a primeira casa que batemos na vila dos estivadores, estava repleta de crianças de todas as idades, a mãe desnutrida nos recebeu com ressalvas:
    – Senhores – disse nos ela – meu marido ainda dorme, pois ontem chegou muito tarde e embriagado, por favor não se demorem, pois se ele os vir aqui com certeza se aborrecerá.
    Armanide interferiu de pronto:
    – Mas por que ele se zangaria se nós queremos apenas ajudar vocês?
    Lágrimas escorreram de seus olhos e olhando para seus filhos disse em um fio de voz:
    – Filha, você não imagina como ele é mau, zanga-se com qualquer coisa.
    Eu e Artur não conseguimos interferir para mudar o rumo da conversa e enquanto tentávamos pensar em o que dizer, Nuno foi mais rápido:
    – Meu pai sempre diz que se pedimos ao Grande Deus, ele nos escuta, porque não pede a ele que faça seu marido deixar de ser mal e zangar-se por qualquer coisa?
    Neste momento vejo um homem alto de feições marcadas pela vida insana, entrar no pequeno aposento, ele visivelmente se assustou com a nossa presença, mas não falou absolutamente nada, foi Armanide que novamente quebrou o silêncio:
    – Senhor, meu primo estava dizendo à sua esposa para pedir ao Grande Deus que fizesse com que o senhor não se zangasse com qualquer coisa.
    O homem olhou para ela parecendo não entender, mas a tranqüilidade e o jeito meigo de minha filha o fizeram sentar-se sem desviar os olhos dela e em seguida declarou:
    – Filha, a vida é muito ingrata comigo, eu tento não me zangar, mas não consigo, pois quando vejo meus filhos passando fome, me aborreço com tudo, se tivesse que pedir algo a alguém pediria trabalho.
    Como vimos o ar amistoso do homem e percebemos que o gelo havia sido quebrado pelas crianças, deixamos que Nuno interferisse novamente:
    – Senhor – se encontrar trabalho – não se aborrecerá mais com sua esposa e seus filhos?
    –  Sim! Respondeu prontamente Gregório – o estivador desempregado.
    Nuno voltando-se para Artur, replicou:
    – Papai, você disse ontem que precisávamos de um jardineiro para cuidar do jardim do Templo.
    Artur engoliu em seco e falou para Gregório:
    – Senhor, realmente precisamos de um jardineiro, mas esta pessoa terá que ter algumas qualificações: como não se embriagar e cumprir fielmente com seus horários e obrigações.  Não precisa nem saber o ofício pois minha esposa o orientará.  Pagamos um salário suficiente para alimentar e vestir todas as crianças, mas não serei condescendente, qualquer deslize não será perdoado, se concordar podemos acertar assim.
    Gregório arregalou os olhos e agradeceu sobremaneira, aceitou o serviço – trabalhou com Artur e Claudia no jardim do Templo até o ultimo dia de sua vida.

continuação…

 

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