Constantinopla-30

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    Meu cunhado respondeu:
    – Compreendo perfeitamente Aimanon, mas vou insistir, quem sabe alguns domingos por mês você pode me acompanhar.
    Me surpreendi com a insistência, pois tinha sido bem claro, e domingo é o único dia que fico com meus filhos, e um tempo sagrado.  Respondi rispidamente:
    – Não posso, meus filhos são pequenos e eles só tem um pai, e este pai só pode dar-lhes atenção neste dia.
    Artur pensou um pouco, e disse:
    – Aimanon, não quero parecer inconveniente, mas isto que te peço foi me solicitado pelo Sacerdote Armon, ele sempre sabe os motivos de seus pedidos.  Aguardarei que pense melhor, me avise de sua decisão.
    Levantou-se e entrou na casa.
    Tive vontade de gritar com ele, pois eu sou apenas um e meus filhos são o que tenho de mais importante, jamais sacrificarei o pouco tempo que tenho para ficar com eles, seja qual for o motivo.
    Neste momento, a voz amiga, que nos últimos tempos me acostumei a chamar de Uruãn que era o nome do amigo invisível de Tor, um Deus Grego que tinha todas as respostas, me disse:
    – Aimanon, o tempo não existe.  O que existe são as atitudes do bem, não perca esta oportunidade, fale com Suzana e reserve um domingo por mês para este trabalho, as crianças se orgulharão de seu pai e se sentirão felizes por cedê-lo por um tempo para visitar crianças que não tem um pai tão amigo e prestativo como o delas.
    Pensei melhor e ao ver Armanide brincando no jardim pedi que chamasse Suzana. Ela veio rápido e se sentou ao meu lado. Disse:
    – Aconteceu alguma coisa, é só olhar para a ruga que aparece entre seus olhos que já sei que está com algum problema.
    Relatei tudo que havia ocorrido, sem olhar para Suzana, pois já estava cogitando ceder ao pedido de Artur e não queria que ela percebesse, pois eu acataria a opinião de minha esposa incondicionalmente, sem considerar o que Uruãn havia me dito.
    Suzana ouviu sem me interromper, e ao final disse:
    – Aimanon, não sofra com isso, acho que tem que ir um domingo a cada três, este trabalho é muito importante, nossos filhos estão crescendo saudáveis e felizes, eles não se importarão. Quando chegarmos em casa conversaremos com Armanide, Túlio, Germano e Laila e pedimos autorização a eles.  Tenho certeza que não se negarão.
     Foi o que fizemos, eles nos ouviram e foi Armanide que primeiro se manifestou dizendo:
    – Papai não se preocupe conosco, ficaremos obedientes e ajudaremos mamãe com o almoço, se vovó ou Tio Lucius vierem, nós colocaremos mais um prato na mesa como você faz.  Germano que tinha apenas sete anos completou:
    – Eu e Túlio racharemos a lenha e vamos ajudar mamãe a limpar o fogão.
    Fiquei amorosamente feliz, meus filhos, na inocência da pouca idade, já sabem a necessidade  do auxilio mutuo que se deve despender quando se vive sob a égide da união.
    No dia seguinte ao me dirigir ao rio em companhia de Antron, contei-lhe o que havia acontecido e da decisão que eu, Suzana e as crianças tomamos, meu irmão, emocionado, me disse:
    – Aimanon, nos domingos que você não estiver, eu me comprometo em ir até sua casa para fazer companhia às crianças, Miriam e meus filhos ficarão muito felizes em me acompanhar.
    Agradeci, feliz, pois Miriam não tinha o carisma de Suzana e vivia muito afastada do resto da família, seria um bom motivo para alterar esta situação.  Após a pescaria, quando cheguei na casa do rio, Artur me aguardava acompanhado de Claudia e seu filho mais velho – Nuno de dez anos.
    Abri a porta  e após os cumprimentos, Claudia e Nuno se dirigiram à cozinha, pois ela disse que iria preparar um chá para todos.
    Artur me olhou ansioso e disse:
    – Aimanon o que decidiu ?
    Eu não conseguia entender tanto empenho por parte de meu cunhado, mesmo dizendo que este pedido foi uma solicitação do Sacerdote Grego.  Respondi prontamente:
    – Conversei com Suzana e as crianças maiores e elas me autorizaram a te acompanhar um domingo por mês.
    – Sabia que você concordaria, não imagina como me alegra esta decisão, à partir do próximo domingo iniciaremos nosso trabalho junto ao povo.  Falei em ritmo de desabafo:
    – Artur, eu não sei exatamente a força que move minha vida, mas toda vez que ela age, sempre chega primeiro, quando me ponho em ação tudo já está previamente preparado, só me resta concordar e trabalhar.
    Meu cunhado, disse:
    – Esta força é emanada pelo Senhor absoluto, pelo Criador de tudo e de todos: Deus.  Você tem muitas missões a cumprir, assim como eu, e isto se deve apenas à nossa vontade de querer enxergar além do que estes olhos que apodrecerão enxergam.
    Apontou para os meus olhos e abriu um largo sorriso.  Neste momento entrou Claudia com o chá fumegando.  Foi um encontro delicioso, fiquei sabendo de detalhes da vida na Grécia, onde Artur de desdobrava no mercado, vendendo especiarias e os estudos noturnos na Academia dos Grandes Sacerdotes, aprendeu filosofia, astronomia, teologia e astrologia – algo totalmente fora do contexto da vida de todos os homens da época. Minha irmã cuidava da casa, das crianças e trabalhava, costurando e lavando as roupas para os Sacerdotes da escola onde Artur estudava, com isso, ele não precisava pagar para frequentar às aulas.
    Consegui sentir a concretude do amor e da união que existia entre Claudia e Artur. Enquanto ele discorria sobre a vida na Grécia, olhava para minha irmã e para meu sobrinho com tanta ternura que me emocionava. Nuno e Miguel começaram a ajudar o pai com seis anos, no mercado da Ilha, enquanto Claudia trabalhava em casa.
    Nuno interrompeu a narrativa dizendo:
    – Tio, agora já tenho dez anos, papai me disse que quando ele e você fossem visitar as crianças que não tem pais eu poderia ir com vocês. Será que você deixa Armanide ir também?
    Artur o olhou com ar reprovador, mas após um embaraçoso instante, nós três começamos a rir convulsivamente, e meu cunhado falou:
    – Me desculpe Aimanon, eu sabia que você aceitaria e apesar de saber que as crianças não tem travas na língua, comentei com meu filho, e agora ele me coloca em uma situação constrangedora.
    Eu, com pena de seu ar frágil e arrependido, olhei para Nuno e falei:
    – Não se preocupe, conversarei com Tia Suzana e perguntarei para Armanide se ela gostaria de nos acompanhar.
    Nuno se levantou e me abraçou dizendo:
    – Brinquei bastante com Armanide ontem e gostei muito de conversar com ela.
    Sabia que ali nascia uma grande amizade, o que não sabia é que ela seria responsável por muito acontecimentos futuros, onde as palavras do Grande Deus direcionariam atitudes de amor ao próximo.

continuação…

 

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