Constantinopla-29

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   A família se instalou na casa do Templo e no domingo todos se reuniram na casa de Tia Adele e Tio Elias.  Foi uma grande festa, com muito mais pessoas que o usual, pois desta vez, participaram toda a família das três irmãs que contava ainda com cinco irmãos homens e suas respectivas famílias.
    Artur revelou a todos que estudou muito na Grécia, durante estes doze anos, em uma escola conduzida por Ácmon, o mais respeitado filósofo da época. Quando Sacerdote Ramon faleceu, o próprio Ácmon conduziu os trâmites para que ele pudesse voltar a Fers e prosseguir o trabalho do velho amigo. Sacerdote Ramon foi o responsável por sua vida tomar este rumo.  Quando jovem, Artur ficava horas conversando com ele sobre a vida após a morte, pois buscava entender o que havia ocorrido com ele.  Ele sempre o atendia com amor e carinho e dizia-lhe coisas que o confortavam e o fizeram entender com clareza o porque de uma infância tão trágica.  Quando soube de sua morte, ficou arrasado e um dia conversando com um de seus mestres, soube que estava preparado para assumir um Templo e este iria solicitar a Ácmon que o encaminhasse para sua cidade natal, foi o que aconteceu, agora seria ele a receber os jovens em busca de respostas para seus sofrimentos.
    Fiquei hipnotizado por sua narrativa, sincera e serena. Meu coração batia descompassadamente em busca de novamente entender o porque a vida se desenrola de maneira tão diferente, brindando uns e punindo outros. Será apenas ouvir ou não ouvir a voz da razão?  Pensando nisso, meu amigo invisível me diz:
    – Aimanon, esta vida que você vive neste momento é apenas uma entre muitas.
    Isto foi para mim algo novo, é certo que já havia lido sobre isso nos livros de Tio Elias, mas nunca tinha trazido este conceito para o dia a dia e muito menos que pudesse ser responsável por atitudes de pessoas vivas.  Pedi que fosse mais claro:
    – As atitudes e as decisões que todos tomam quando estão vivos, são sempre influenciadas pelas situações vividas em vidas precedentes.
    – Mas como assim?  Retruquei.
    – Todos os corpos mortais carregam uma energia invisível para a grande maioria dos homens, apenas alguns médiuns treinados, como você, enxergam.  Quando ocorre a falência e a morte do corpo, ela se vê livre e se movimenta ou em direção à casa do Grande Deus ou fica vagando, saudosa do corpo que se foi, sem entender que ele já não existe mais.  Após um certo tempo, ela pode novamente voltar em outro corpo na forma de um bebê. Mas a energia é a mesma, apesar de não ter lembranças arquivadas, possuem antigas tendências e sensações, e isto pode ocorrer inúmeras vezes, sempre com o objetivo de levar a energia cada vez mais perto do Grande Deus.
    Esta explicação era ao mesmo tempo, lógica e aceitável, como irreal e moldada para explicar as agruras de uns e bem-aventurança de outros, novamente retruquei:
    – Mas se for assim, porque vemos vidas tão diferentes?
    – Porque nada que se faz de bom ou ruim, passa despercebido ao Grande Deus, quando você usa a inteligência e a razão para traçar caminhos é você que faz a escolha, não existe nenhuma interferência dos auxiliares do Grande Deus, mas se o caminho escolhido te levar a fazer coisas erradas, você terá outras oportunidades de nascer de novo e consertar o erro.  Só se chega ao verdadeiro objetivo, que é adentrar à Casa do Grande Deus, quando todas as atitudes da ultima vida forem de amor com a natureza, compaixão com os necessitados, união com amigos e familiares, enfim, tudo que se pode esperar de um homem sábio e equilibrado.
    Uma luz iluminou uma lacuna em minha mente, faltava esta explicação para tudo fazer sentido, então tudo que vejo ocorrer com muitos dos que me procuram são situações criadas em vidas anteriores, que nesta, o Grande Deus teima em apresentá-las novamente para que sejam transpostas?  Assim é mais fácil entender o porque das vidas de Artur e Minélus terem sido tão opostas.  O primeiro usou a inteligência e a razão somado com conhecimento que com certeza já tinha trazido de outras vidas para viver sua ultima vida, o segundo desperdiçou a oportunidade, e com certeza voltará outras tantas até atingir o grau necessário para não mais voltar.
    Pensando nisso, a voz novamente intercedeu:
    – Aimanon, existe algo que você ainda não sabe, e eu preciso lhe dizer, as energias normalmente retornam para conviver junto a antigos familiares e amigos queridos.
    – Mas como pode ser isso, perguntei?
    – Geralmente voltam para prosseguir convivências marcadas pelo amor e em outros casos resolver pendências.  Veja a vida de sua Tia Adelane, ela teve uma existência anterior a esta, em que era mãe de Omar, seu noivo, que morreu misteriosamente.  Naquela vida, ela o abandonou ao relento e ele morreu de frio devido esta falta de cuidado.  Nesta vida, sentiu a mesma dor da perda sem poder fazer absolutamente nada e a todo momento, inconscientemente revivia aquele episódio do bebê, que ela matou sem o desejar por falta de cuidado.  Foi por isso que sua vida ficou encapsulada por uma casca que a impedia de sorrir e também de ser feliz.  Com a morte de seus avós, cuidando de seus irmãos, com dedicação e esmero, o Grande Deus a presenteou com Ramon, filho de Ágata, que quando nasceu, veio morar com ela em companhia de sua mãe, devido à morte de seu pai.  Este menino é o mesmo Omar que foi seu noivo e o mesmo bebê que ela deixou ao relento sem se preocupar com as consequências.
    Tudo isto era inacreditável e ao mesmo tempo tão lógico que não percebi que Claudia estava ao meu lado.  Quando consegui me focar no que ela dizia, escutei-a me pedindo:
    – Aimanon, venha até o jardim que Artur gostaria muito de conversar com você.
    Me desculpei pela distração e a acompanhei. Meu cunhado me esperava sentado sozinho embaixo do pé de abacate.  Quando me aproximei, ele se levantou e me deu um grande abraço, fiquei muito feliz com este gesto amigável.  Sentamo-nos enquanto Claudia se afastava.  Artur falou primeiro:
    – Meu cunhado, muito tenho ouvido falar de seu trabalho, mesmo antes de aqui chegar.  Em Creta, meu mestre Armon me relatou seu esforço e a autorização dada por Ácmon e os Sacerdotes Maiores para que fizesse provisoriamente cerimônias oficiais sem o necessário preparo.  Sei também que esta conduta foi intuída a eles pelo Grande Deus – nosso pai e protetor.  Você tem muito mais conhecimento e experiência do que imagina.  No passado, ou melhor, em uma vida passada, você e Menéas foram grandes sábios que conduziram e direcionaram muitos necessitados.
    Eu o ouvi atentamente e por incrível que pareça, nada do que ele havia dito me surpreendeu.  Sempre senti que Menéas era muito mais que um amigo que me ajudou a aprender a pescar.  E o fato de começar a fazer cerimônias no Templo Sagrado foi porque recebi uma carta vinda da Grécia me pedindo tal conduta.  Por dias fiquei intrigado com este fato, pois continha, meu nome completo e até informações pessoais como o nome de Suzana e a data do nosso casamento, era assinada por dois Sacerdotes e me foi enviada da Ilha de Mykonos, na Grécia.
    Artur prosseguiu :
    – Agora que eu e minha família já nos instalamos, iniciarei meu trabalho amanhã.  Como faz muito tempo que deixei esta terra, gostaria que me acompanhasse nos primeiros dias, pois pretendo visitar, uma a uma, todas as famílias que vivem na cidade e nas redondezas do porto.
    Pensei alguns minutos, respondi com sinceridade:
    – Muito me alegra suas palavras, mas não posso te acompanhar, pois minha família depende do meu trabalho para sobreviver, e eu, como já deve saber, atendo muitos necessitados todos os dias na casa de Menéas e agora que você chegou, pensei em direcionar o tempo que passava no Templo em cuidar do pedaço de terra que meu pai me deixou, que por enquanto, é meu irmão Lucius que cuida, mas isto se tornou uma carga muito penosa para ele.

continuação…

 

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