Constantinopla-26

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     Após meia hora, tudo cessou e ele morreu.
   Tiburcio disse que ficaram na casa até o dia amanhecer, sem saber o que fazer, depois foram até o cais, para pedir auxilio a outros amigos, que se negaram a buscar o corpo. Pensaram em jogá-lo ao mar e para isso teriam que ter uma embarcação, como não tiveram sucesso nesta tentativa e os três companheiros de repente desapareceram resolveu avisar a família para cuidarem de entregar Minélus aos Deuses.
    Ao entrar e me ver, Tia Croele avançou em minha direção e aos gritos disse:
   – A culpa é sua e daquela menina mimada, meu filho morreu de desgosto porque ela se acha superior apenas por seu pai ser mais rico que nós.
  Eu emudeci, meu cérebro paralisou-se e nada que pudesse falar me ocorreu no momento, apenas dei às costas e saí.  Múrcio correu em meu auxilio, me abraçou e disse:
    – Aimanon, ela está transtornada pela dor, não considere nada do que lhe disse.
   Eu apenas assenti com a cabeça e fui para casa, não havia nada que pudesse fazer ali.  Durante o trajeto, fui invadido por um sentimento de perdão pela atitude de minha tia, pois, apesar de não compreender, sabia que tanto ela quanto Minélus foram movidos por alguma força desconhecida que tolhia sua razão e impedia que enxergasse claramente a realidade.
   Suzana e Catarina cuidavam de Armanide e se assustaram por ter chegado tão cedo.     Contei detalhes do que havia acontecido esta manhã.  Catarina, mais serena que Suzana, disse:
   – Nosso primo é um espírito sofredor, ele necessitava de um motivo para prosseguir sofrendo e o fato de Suzana não ter aceito seu pedido de casamento foi apenas a desculpa que buscava para prosseguir padecendo, se em algum momento ele tivesse superado esta insana busca de continuar cultuando o sofrimento e tivesse pedido humildemente auxilio ao Grande Deus não estaria agora morto, pois sua vida seria outra, longa e produtiva.  Precisava apenas, por um instante, reconhecer que estava percorrendo o caminho errado e desejar sinceramente abandoná-lo.
   Eu e Suzana nos olhamos pasmados.  Fui eu que me recuperei primeiro, falei:
   – Catarina, de onde tirou este discurso?
   Ela me olhou sem entender e falou:
   – Que discurso ?
  Me lembrei das palavras de Menéas : Catarina é médium, suas falas são comunicações do Grande Deus.  Me recompus e mudando de assunto, falei:
   – Precisamos avisar mamãe e vovó, não podemos deixar de ir todos nós às cerimônias de despedida, ele era nosso primo, portanto membro de nossa família.
Suzana concordou de imediato mais Catarina retrucou :
   – Aimanon, se somos da mesma família, porque ele foi tão injusto com Suzana ?
  Como era aquilo Grande Deus ? A instantes ela mesmo proferiu a mais sensata das respostas a esta mesma pergunta ?  Confesso que o que acontece com os médiuns é inalcançável para o entendimento humano, eu não tinha conhecimento suficiente para entender este mecanismo tão complexo.
   Suzana veio ao meu auxilio e respondeu prontamente:
  – Catarina, o que ocorreu no passado deverá ser esquecido, temos obrigação de ir e prestar nosso apoio à Tia Croele e Tio Cirilo. Orar para que Minélus faça a viagem para sua nova casa sem carregar mágoas ou rancor.  Eu disse para as duas:
  – Vou até à casa de mamãe agora, avisá-la do ocorrido, vocês se preparem, deixaremos Armanide com vovó, Mirna e Triciana, iremos todos.
   Percorri o curto trajeto até a casa de mamãe rapidamente, Antron já havia retornado da pescaria e estava na plantação com Lucius.  Mamãe e vovó receberam a noticia com muita tristeza.  Apesar da personalidade rude, minha mãe tinha muito respeito e amor por Tia Croele.  Quando meus avós morreram, ela ainda não havia se casado e praticamente cuidou sozinha de minha mãe nos seus três primeiros anos.  Tia Adelane cuidava da casa e das refeições.  Uma ocasião, quando tinha dois anos, minha mãe se perdeu no mercado de Marcentália e por pouco não foi levada por um desocupado inescrupuloso.  Foi Tia Croele, que aos gritos conseguiu que suas intenções não se concretizassem, este e outros fatos de carinho e cuidado marcaram a relação das duas e acredito até que a antipatia gratuita que mamãe tinha por Suzana, era por conta também de sua recusa de desposar Minélus, pois à partir deste gesto concluiu que Suzana não era a esposa ideal para mim e que deveria ter aceito o pedido de meu primo.  Amava Tia Croele e nada impedia a dor que sentia pelo sofrimento de sua irmã diante da perda de seu filho.
   Enquanto elas se aprontavam e vovó cuidava de tudo que fosse precisar, pois passaria esta noite em minha casa com minhas irmãs menores, eu me dirigi à plantação para buscar Antron e Lucius.  Meus irmãos receberam a noticia com muita tristeza, pois Minélus quando menino sempre vinha até nossa casa e às vezes passava dias conosco, seu comportamento  se alterou apenas quando passou a conviver com os “amigos” do porto, isto, mesmo antes da tentativa de desposar Suzana.
   Saímos no final da tarde de minha casa, Catarina acabou não indo, pois nos disse que preferia ficar com vovó, pois o simples fato de se aproximar de Tia Croele à deixava em pânico.  Nos pediu que guardássemos segredo, pois isto ocorria desde que era muito pequena e nunca disse à ninguém, sempre a evitava, pois era uma sensação muito ruim.
   Falamos para mamãe que Armanide estava acostumada com Catarina e assim daria menos trabalho a vovó.
  O trajeto foi longo, a casa de Tio Cirilo ficava além do porto, em uma vila de estivadores,  era diferente das outras predominantemente brancas, a sua era pintada de verde se destacando ao longe.  Ao nos aproximarmos, vimos a movimentação de muitos vultos difusos  iluminados pela luz das lamparinas que refletia de dentro da casa.
  As minhas sensações se confundiam naquele momento, o meu lado humano antecipava-se e insistia em pedir que não prosseguisse, retornasse dali, mas o senso do correto sobrepôs-se, apertei as mãos de Suzana e adentramos na casa de Tia Croele.  Mamãe se adiantou, cumprimentando à todos.  Eu, Suzana, Antron e Lucius ficamos para trás, nos postamos diante da mesa onde jazia o corpo de meu primo e oramos.  Imediatamente após minha prece, abri os olhos e vi Minélus com um aspecto horrível, a pele parecia de cera, os olhos vermelhos como duas cerejas, faiscavam. Assustei-me com esta visão tétrica, orei novamente e ele desapareceu.  O que ocorreu à seguir foi algo inimaginável : Tia Croele, ao ver Suzana, partiu em sua direção e tentou agredi-la dizendo:
   – O que faz aqui ?  Você foi a responsável pela morte de meu filho, ponha-se daqui para fora.
   Todos assistiram incrédulos esta cena horrível, Suzana me apertou as mãos e se calou, quem primeiro levantou a voz foi Tobias, o irmão mais velho de minha esposa, dizendo:
   – Tia Croele, respeito sua dor, mas a senhora está se excedendo, o único responsável pela morte de Minélus foi ele mesmo.  A senhora e Tio Cirilo tiveram participação neste desenlace pois sempre encobriram suas más ações e nunca o repreendiam.  Minha irmã tinha todo o direito de recusar se casar com ele, pois não o amava.

continuação…

 

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