Constantinopla-24

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    Olhei para o céu ainda escuro e supliquei:
    – Grande Deus, não me sinto preparado, tenho medo, nem ao menos consegui dizer à Tia Adelaide que vi Tio Nuno bem e saudável ao seu lado enquanto ela se lamentava por sua morte.
    – Nós lhe auxiliaremos, apenas conte o que lê nos livros de seu tio, lá estão todas as respostas, se esquive de comentar o que vê e o que ouve.  Estes escritos chegaram até suas mãos por este motivo.
    Neste momento, senti uma pesada mão sobre meu ombro direito, vi que era Múrcio, ele falou:
    – Não iremos pescar hoje, precisamos cuidar dos funerais, pois Menéas não tem nenhum parente e seremos nós, seus amigos, que iremos providenciar que ele faça sua viagem em paz.
    Eu ainda estava totalmente atônito, apenas assenti com a cabeça, e quando Múrcio se afastou, deitei na areia fofa e fiquei olhando o céu estrelado, pensando:
    – Grande Deus! Como somos insignificantes, este céu é a completa tradução de sua sabedoria, nós para construirmos nossa casa, precisamos da força de muitos homens, levamos um tempo imenso e mesmo assim ao terminarmos olhamos e não enxergamos nenhum traço da perfeição de uma única estrela.
    – Que mistério é este?  Acho que não devo contestar nenhuma palavra que você me fala, como posso eu, com minha pequenez saber o quanto de verdade carregam estas Determinações do Alto.  Devo aceitar e me curvar diante de tanta sabedoria e discernimento.
    As providencias foram tomadas rapidamente, levamos o corpo de Menéas para o Templo Sagrado a pedido de Sacerdote Ramon, acredito que toda a população da Cidade de Constantinopla esteve presente, pois não havia lugar no grande salão, durante todo o dia ele ficou lotado.  Mesmo aqueles que nutriam algum temor pela postura do velho Menéas foram até lá, como mamãe e Antron.  Ela dizia que apesar de não compartilhar de sua crença, era eternamente grata por ter me ensinado a pescar e me dado tudo que precisava, pois nós não tínhamos como comprar.
    Suzana saiu de casa pela primeira vez desde que Armanide nasceu, deixou-a com Catarina e veio com vovó e Antron.  Pedi que meu irmão fosse buscá-la porque sabia de seu respeito e carinho pelo velho adivinho. Tia Adelane ficou todo o tempo de pé encostada em uma pilastra, parecendo anestesiada, mas eu sabia que conversava com Omar, pois o vi todo o tempo ao lado dela.
    No final da tarde o corpo foi levado pelos homens para ser cremado e novamente durante a cremação eu me senti desconfortável, suava com muita intensidade, apesar de minhas mãos permanecerem geladas.  Ao acenderem a chama que desintegraria o corpo de meu amigo, eu o vi surgir à minha frente, sorrindo, parecendo muito mais jovem, olhou para mim e disse:
    – Aimanon, meu amigo, tenho agora outras tarefas a cumprir.  Meu corpo carnal já não  é mais necessário para o que terei que fazer à pedido do Grande Deus.  Como já sabe, a partir de hoje, será você a prosseguir minha missão junto a este povo bendito.
    Novamente protestei, pois não havia ainda compreendido o que realmente teria que fazer e disse:
   – Menéas, eu não posso, além de ser ignorante, tenho mulher e uma filha, e conforme sua predição ainda virão mais onze filhos, é muita boca para alimentar.
    Ele me olhou com aquela bondade extrema que nunca o abandonava, falou:
    – Não se preocupe com absolutamente nada.  Tudo já está planejado pelo Grande Deus.  Amanhã após a pesca vá até minha casa e ajeite tudo da sua maneira, mexa no baú do quarto, lá encontrará muitas ervas para infusão e também receitas de chás para muitos males, deixei tudo muito bem explicado.  Tudo que precisar você terá.  Todos os dias, após a pesca, permaneça em minha casa por uma hora, logo as pessoas necessitadas virão.  Ao terminar de dizer isto, desapareceu, sem que houvesse tempo para contestar.
    À noite, contei o ocorrido para Suzana e Catarina, elas me ouviram atentamente e minha esposa falou:
    – Aimanon, a partir de amanhã faça o que ele te pediu, sinto que é o que tem a fazer. Não se preocupe conosco, este tempo não fará diferença, se você ajudar uma pessoa por dia, já valeu a disposição de ceder uma hora de seu dia.
    No dia seguinte, conversei com Múrcio e disse que antes de morrer Menéas havia me feito aquele pedido, ele me disse:
    – Então cumpra Aimanon, Menéas sempre soube o motivo de cada pedido que nos fazia, eu tenho muitas histórias para te contar, mas um dia, com mais calma, nós conversaremos.
    Após vender os peixes excedentes, pedi para Antron levar o restante para Suzana e me dirigi para casa de Menéas sob os protestos de um irmão, que achava insana minha decisão.
    Abri a porta com facilidade, pois apenas uma tranca rudimentar impedia sua abertura.  Senti a presença de Menéas em cada canto, apesar de não o visualizá-lo.  Entrei no quarto, vi o grande baú, abri-o cuidadosamente e qual não foi minha surpresa ao ver que dentro dele não havia absolutamente nada.  Fechei-o.  Repensei tudo que ele havia me dito.  Abri novamente, nada havia.
    Confuso, sentei-me na esteira da sala e pensei:
    – Grande Deus, é isto uma brincadeira?  Como vou receitar chás se mal sei distinguir uma folha de malva de uma de hortelã?  Minha família ficou em casa, e eu aqui me sentindo um idiota, vou embora e não volto mais.
    Neste momento, ouço bater à porta, era Múrcio, carregando um grande saco que parecia repleto, me disse:
    – Aimanon, esta noite, vândalos liderados por Minélus, seu primo, entraram nesta casa e pegaram estes objetos com o objetivo de destruí-los, pois Minélus sempre nutriu muito rancor por Menéas, pois dizia que foi ele que havia destruído sua vida, mas ao jogarem o saco no mar, apesar de pesado, ele não afundou.  Todos fugiram, inclusive seu primo.  Tiburcio, um dos vândalos, arrependido me procurou e qual não foi minha surpresa ao ver o saco boiando próximo daqui.
    Nós o abrimos e estava tudo ali, vidros, papéis, folhas de espécies diferentes de plantas.  Tudo seco, como se nada tivesse sido retirado do lugar onde estava guardado.
    Sentamos na esteira perplexos, enfim, algo inacreditável havia acontecido. Múrcio falou primeiro.
    – Não há explicação lógica para isso, portanto é mais um sinal que você deve fazer o que ele te pediu meu amigo.
    Eu ainda não tinha me recuperado da surpresa, mal ouvi o que Múrcio havia falado. Havia me precipitado e achado que tivesse sido enganado, me arrependia profundamente e pedi perdão.  Uma voz serena me disse:
    – Aimanon, quando se carrega este corpo de carne é muito difícil enxergar a verdade absoluta, é necessária muita humildade em se reconhecer que o Grande Deus vê tudo, sabe tudo e tudo que ele nos diz corresponde à verdade.  Portanto, não se martirize, duvidar é absolutamente normal, o importante é sempre se manter humilde e trabalhar auxiliando os que enxergam menos que nós.
    Senti que Múrcio me conduzia para fora da casa, olhei para ele dizendo:
    – O que aconteceu?
    – Você me pareceu prestes a ter um desmaio, não me ouvia e ainda não abria os olhos, por isso achei que um pouco de ar fresco poderia lhe fazer bem.
    – Me desculpe Múrcio, acho que estava tão concentrado que perdi a razão, agora estou bem.

continuação…

 

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