Constantinopla-17

 

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17/50
    No dia seguinte, ao terminar a pescaria, me dirigi ao encontro de Suzana, ela me recebeu abatida, os olhos fundos, pois não havia dormido durante a noite.  Ela me abraçou demoradamente e disse:
    – Aimanon, mamãe não está bem, ela não se alimenta e mal consegue se levantar.
    Eu pedi que se tranquilizasse e me levasse até ela.  Ao adentrar o quarto onde Tia Adelaide repousava, senti uma corrente de ar gelada a ponto de instintivamente procurar as janelas que como previa estavam todas fechadas.  Sentei-me ao seu lado e ao levantar os olhos, vi Tio Nuno postado do outro lado da cama, pareceu-me entorpecido da mesma maneira que o vi durante a cremação.  Fechei os olhos e o imaginei sorrindo e conversando conosco no dia do meu casamento com Suzana, neste momento ouvi seu pensamento que dizia:
    – Aimanon, aquele foi o dia mais feliz da minha vida, superando até os dias que meus filhos nasceram, pois senti que havia cumprido minha missão e entregue minha filha Suzana pronta ao seu marido.  Uma maravilhosa mulher, bondosa, alegre, consciente de suas obrigações como esposa e mãe.
    Respondi:
    – Tio, eu lhe agradeço muito, Suzana é tudo isso e muito mais, mas agora sua missão com os meninos e Tia Adelaide também se encerrou, vá com Tio Elias e Tio Percilio, que o aguardam, deixe que eu e Suzana cuidaremos de todos.
    Neste momento, vi meus dois tios se postarem um de cada lado e os três desaparecerem juntos.  Orei para que ele pudesse encontrar o caminho da casa do Grande Deus.  Ao abrir os olhos, vi Tia Adelaide acordar e pedir para cear pois estava com muita fome.  Me despedi de Suzana, que me disse:
    – Acho que agora ela vai melhorar, se isto realmente acontecer, volto para casa amanhã.
    – Não tenha pressa querida, cuide dela o quanto achar necessário.
    Nos beijamos e eu segui para casa de Menéas.  Contei tudo sobre o que havia ocorrido durante a madrugada e no momento da visita a Tia Adelaide, ele falou:
    – Você fez tudo que tinha que ser feito, ensinou a ele o caminho de sua nova casa.  Amanhã, peça para Suzana dar à sua tia este remédio.
    Ele me deu um frasco escuro e pediu que ela ingerisse uma colher várias vezes ao dia.  Após seis dias, quando  já estava totalmente recuperada, Suzana voltou para casa. No sétimo dia, todos nos reunimos no Templo Sagrado para orarmos por todos que pereceram no terrível acidente.  Após à cerimônia, fomos para casa de Tio Elias, pois Rafael ainda não havia se recuperado, tinha muitas feridas pelo corpo causadas pela falta de higiene nos dias que precederam ao acidente, mas o pior era seu estado mental, às vezes parecia lúcido, às vezes se entregava a um marasmo no qual balbuciava palavras desconexas e muitas vezes não compreensíveis.
    Meus irmãos menores, inclusive Catarina, voltaram para casa com vovó, enquanto eu, Suzana, mamãe e Antron nos dirigimos à casa de Tia Adele. Era uma construção tão bonita como a do Tio Nuno mais tinha uma imponência indescritível, aos meus olhos à via como que cercada de vapores invisíveis como se à sustentassem acima do chão.  Esta sensação sempre me acompanhou, me lembro da primeira vez que lá estive, tinha seis anos, Tio Elias tinha acabado de se mudar com sua família e deu uma festa para comemorar a nova conquista.  Assim que nos aproximamos, segurando as mãos de meu pai perguntei-lhe:
    – Papai, porque Tio Elias fez sua casa encima de uma nuvem?
   Ele respondeu sisudo:
    – Menino, que bobagem é esta? Não vejo nuvem nenhuma, a casa está no chão tanto quanto a nossa.
    Á partir daí todas às vezes que me aproximo dela vejo uma neblina densa a circundando, inclusive por baixo, dando a impressão que flutua e neste dia não foi diferente, eu busquei na minha mente as explicações de Menéas e conclui que isto só poderia ser algo que só os médiuns enxergam e nada disse.
    Tia Adele havia saído rapidamente do Templo Sagrado auxiliada por Múrcio e Lucia.  Rafael ficara com sua irmã Tarcila e seu marido Osias.  Ao entrarmos, muitos tios, tias e primos já haviam chegado, inclusive Tia Croele e Minélus que me olhou com uma crueldade que me petrificou, vi cenas horríveis que não consegui processar, apenas sabia que eram a personificação de muito sofrimento.
    Rafael se encontrava em um dos quartos e fomos até lá para cumprimentá-lo.  O cômodo estava abafado e fétido, as feridas abertas ainda mantinham uma fina camada de pus, estavam sendo tratadas com unguentos feitos com ervas maceradas e argila, apesar de cuidadas, apresentavam um aspecto horrível.  Meu primo estava semi desperto mas mesmo assim me reconheceu, dizendo:
    – Aimanon, obrigado por ter trazido Tia Linizia e meus primos, eu sofro com a ira dos Deuses mas o pior foi o que aconteceu com meu pai, Tio Nuno, Tio Percilio e todos os amigos que partiram.
    Lágrimas escorreram por seu rosto, e eu, em um impulso, quase lhe disse que eles estavam bem e já tinham encontrado o caminho da casa do Grande Deus, mas ao me dar conta que mamãe estava ao meu lado, me calei, apenas assenti com a cabeça.  Foi mamãe que tomou a palavra dizendo:
    – Rafael, meus irmãos apenas pagaram pela ousadia de renegar a existência do Deus que comanda os ventos e as tempestades, isto foi um merecido castigo, mas agora eles já aprenderam a lição e estarão bem na nova casa em companhia de Simeão meu marido e meus pais Rute e Iane que também perderam a vida por desafiarem o poder e instigar a ira dos Deuses.
    – Olhei para Suzana e esta compreendeu o desconforto que senti, desta vez calou-se sabiamente. Foi Antron que prosseguiu o diálogo:
    – Primo, de qualquer maneira todos estão bem agora, graças à sua coragem e determinação em trazê-los para serem entregues aos Deuses com todas as honras.  Rafael disse:
   – É isso que me consola, tenho certeza que em nenhum momento faltei com minhas obrigações, agora quero me recuperar para cuidar de mamãe e meus irmãos, quem sabe os Deuses me concedam a oportunidade de ter minha própria família.
    Tio Elias e Tia Adele tiveram apenas três filhos: Rafael, Tarcila e Elias Filho, o qual chamávamos de Elinho.  Tarcila tinha vinte e dois anos era casada com Osias também nosso primo, filho de Tia Augusta, outra irmã de mamãe e um ano mais nova que Tia Adelane.  Naquela época era muito comum o casamento entre primos e às vezes também entre irmãos, ainda não se sabia das conseqüências genéticas que isto poderia acarretar no futuro, mas o Grande Deus é tão sábio que quando se comete faltas por ignorância não há conseqüências concretas, pois naquela vida não me deparei com ninguém que tivesse sequelas em consequências de união co-sanguineas, ao contrário, as famílias eram imensas com muitos tios e tias que eram partilhados por todos. Osias e Tarcila deram a Tia Augusta e Tia Adele  cinco netos homens, todos marcados pela mediunidade como vim a presenciar e acompanhar no futuro.  Elinho tinha dezessete anos, trabalhava no porto com Tio Elifas, mas logo começaria a se dedicar as plantações que seu pai havia deixado. Era solteiro, assim como Rafael.
    A visita foi rápida e logo estávamos acomodados na bela sala adornada com plumas e muitos cristais de todos os tamanhos, em uma parede, ao lado da porta que dava acesso aos outros cômodos via-se a estante com dezenas de livros, todos perfilados um ao lado do outro, arranjados por tamanho e espessura.

continuação…

 

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