Constantinopla-2

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    Agora ela é uma senhora de aproximadamente cinquenta anos e nos conta que sua mãe partiu com uma caravana de nômades e a abandonou, foi criada por uma bondosa família de estivadores, conheceu vovô aos doze anos, se casou,  teve dois filhos, quando tinha quinze anos seu marido morreu e dedicou o resto de sua vida para cuidar de seus meninos, por isso papai a adorava, e hoje no dia de sua partida, ela sofre, mas não derrama uma lágrima, aprendeu com a dor a ser forte e sempre prosseguir.  Enquanto mamãe se desespera, ela cuida da bebê e tenho certeza que já pensa em como fazer para nos proteger.
   Este dia me pareceu algo totalmente irreal, não acreditava no que via, banharam e vestiram meu pai, minha casa se encheu de amigos e parentes de minha mãe Linizia.  O incenso queimou a noite toda, meus irmãos menores dormiram nas esteiras, mas eu, Claudia e Antron ficamos toda à noite do lado de fora de casa, sentados no banco preferido de papai, conversamos, choramos e principalmente trocamos idéias de como poderíamos ajudar mamãe.
   Claudia tinha quinze anos, era morena, cabelos longos e brilhantes, muitos pretendentes se apresentaram para pedir autorização a papai para se casar com ela, mas ele nunca aceitou, dizia que era muito jovem e precisava aprender mais sobre a vida. Agora quem decidirá é mamãe e tenho certeza que ela não titubeará em aceitar o primeiro que aparecer, pois ela sempre dizia a papai:
   – Esta menina tem que casar, esta ficando velha e quando você se der conta ninguém mais vai querer desposá-la.
   Minha irmã é muito obediente e acatará a vontade de minha mãe, peço ao Grande Deus que lhe traga um marido como papai, bom, trabalhador e que lhe dê filhos bonitos e saudáveis.
   Antron é um menino mais rebelde, muitas vezes desobedece as ordens de mamãe e ela lhe repreende com a vara de marmelo, mas ele é apenas um garoto levado, tem um bom coração, adora animais, muitas vezes trouxe pássaros feridos e depois de tratá-los devolveu-os para enfeitar os céus como dizia.
   Agora, nós três desejávamos que o futuro não fosse tão cruel como diziam, lá dentro as conversas giravam em torno de que não conseguiríamos sobreviver sem papai.  Meus irmãos estavam muito assustados e eu lhes contei a história do Grande Deus que Menéas havia me dito, disse que se pedíssemos proteção a ele, nosso futuro não poderia ser tão ruim, pois ele nunca deixa de atender nossos pedidos.
   Quando os primeiros raios de sol se tornaram visíveis, nós ainda estávamos do lado de fora e nos preparávamos para os próximos e dolorosos momentos.  Quando mamãe nos chamou, vimos claramente o sofrimento estampado em seu rosto.  Ela tinha trinta e cinco anos, era a mais nova entre quinze irmãos, todos moravam nos arredores da cidade.  Seu pai e sua mãe faleceram juntos afogados no Rio Nilo, enquanto pescavam para alimentar a numerosa família, nesta época mamãe tinha seis anos e foi criada por seus irmãos e irmãs, ao todo tínhamos sete tias, todas reivindicando o direito de interferir em nossas vidas.  Mamãe era dura e firme no convívio diário, ao contrário de papai que sempre nos mimou e nos transmitiu o valor do trabalho e da boa convivência com todos, independente de sua origem e seu papel na escala social.
   Tia Ágata e Tia Mirna passaram a noite com mamãe e vovó, aos poucos, tios e amigos vão chegando.  O momento da despedida se aproxima, meu coração parece que vai explodir de tanto que bate aceleradamente.
   Após as orações finais, envolveram o corpo de papai em um pano de linho branco e o colocaram na amerra para ser transportado.  Os quatro irmãos mais velhos de minha mãe, Elifas, Tarcilio, Naum e Petrus, seguraram um em cada vara e o levaram ao local onde seria cremado.  Este momento não poderia ser compartilhado por mulheres e crianças, ficamos postados diante de nossa casa até o pequeno grupo composto de quatro tios, irmãos de minha mãe, vizinhos, amigos e cinco tios maridos de minhas tias se afastarem lentamente.
   Quando desapareceram no horizonte, entramos e choramos abraçados, até a bebê chorou conosco, demonstrando que sentia toda a dor que acometia minha família.   Minhas tias foram saindo e se dirigindo as suas casas uma a uma. Apenas Tia Mirna ficou, abraçou mamãe e disse :
   – Nunca se esqueça que abaixo dos Deuses você tem uma grande família que sempre te protegerá e aos seus, aconteça o que acontecer.
   Minha mãe respondeu :
   – Vá em paz minha irmã, os Deuses nos mostrarão o caminho à seguir. Aimanon já é um homem e ficará no lugar de seu pai.
   Ao ouvir isto, meu sangue parece que parou de circular e congelou-se, senti calafrios da ponta dos pés ao couro cabeludo.
   – Meu Grande Deus! E agora ?
   A porta de casa estava entreaberta, acho que vovó disse alguma coisa, mas a única coisa que queria naquele momento era sair dali.  Corri em direção à porta, passei pelo caminho de pedras e corri, corri, sem destino.  Cruzei com algumas tias e primos que haviam saído de casa a pouco, mas não conseguia parar.  Cheguei até a cidade, atravessei praças, cheguei até o Mercado e após ao Porto, continuei correndo, meus pés doíam, as sandálias de couro arrebentaram-se e de repente, a cidade ficou para trás e me vejo em um local que nunca tinha estado antes, parecia que os Deuses também nunca tinham estado lá, animais soltos pelas ruas, crianças imundas e algumas nuas, mulheres sentadas no chão, maltrapilhas e com os olhos entorpecidos pelo orgulho ferido.  Parei diante desta cena dantesca e uma grande paz invadiu meu corpo.
   Como lamentar a perda de meu pai se ainda temos mamãe, vovó, bons amigos e eu com quase quinze anos agindo como uma criança.  Havia tantos infelizes no mundo em situação muito pior que a nossa, que era uma heresia sequer imaginar que nós estávamos em dificuldades.
   Sentei na primeira pedra que encontrei e pensei: Grande Deus, se acha que merecemos sermos motivo de seu auxilio, por favor me dê uma luz que mostre o que fazer.  Neste momento, ouvi uma voz que saia de dentro de meu cérebro, pois não havia ninguém ao meu redor, e ela me disse :
   – Aimanon, seu pai já está conosco, à partir de agora ele auxiliará daqui toda sua família, volte para casa e diga para sua mãe que quer aprender a pescar, ela sempre se opôs porque tinha medo que acontecesse com vocês  o que ocorreu com seu avô e sua avó, mas agora ela vai concordar, pois com a partida de seu pai ela resgatou algo que sempre desejou, a liberdade de decidir o caminho que quer para si e aos seus.  O medo se foi e agora está pronta para te ajudar a se iniciar nesta profissão que sempre trouxe alimento para mesa de sua família original.
   – Agora vá e converse com ela, logo Antron e Lucius também estarão maduros o suficiente para trabalhar com você, e não pense que não gosta de pescar, isto não é verdade, as histórias que suas tias contaram devem ser esquecidas.  O Rio Nilo é um presente do Grande Deus, pense que nele está a dádiva de amor que proverá sua família nos anos vindouros.

continuação…


 

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