Mykonos-100

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    Após alguns instantes de reflexão, a jovem começou a chorar convulsivamente. Jonas a abraçou carinhosamente pedindo que se acalmasse, pois isto era um fato do passado.
    Quando se recompôs, Pilar olhou firmemente para o rosto calejado do avô, afirmou categoricamente:
    – Vovô, vou te contar algo que nunca contei a ninguém, eu sempre soube que não era filha de papai.
    Jonas arregalou os olhos. Esta era uma suposição que jamais tinha passado por sua mente, mas absolutamente plausível. Diante do embaraço em que se viu colocado, Jonas disse apenas:
    – Compreendo!
    Diante da ambiguidade em que o avô fez sua colocação, a jovem irritada respondeu:
    – Como assim vovô? É só isso que tem a dizer? Quero saber quem é meu pai e por quê nunca me disseram nada que mamãe traia Joninho?
    Jonas estupefato com a firmeza e a clareza da neta, respondeu lentamente.
    – Querida, há situações na vida que não podemos ficar remoendo, o melhor é esquecer.
    Cada vez mais ansiosa, ela sabia que a oportunidade era essa, seu avô era o único que poderia ajudá-la a entender este mistério que à tempos ronda sua consciência.
    Falou sem titubear.
    – Vovô, sempre achei que viver com Joninho e senti-lo como sendo meu pai, era impossível, eu sempre soube que algo estava errado.
    Prosseguiu, se emocionando cada vez mais.
    – Até que um dia, após sua morte, tive um sonho. Uma linda jovem que se apresentou como Suzana, me falou exatamente isso:
    – Filha, o Grande Deus sempre sabe o momento certo, quando chegar a hora você saberá quem é seu verdadeiro pai.
    O simples fato de ter ouvido a referência ao nome de Suzana/Anita, deixou Jonas absolutamente absorto em seus pensamentos, no fundo, ele ouvia as seguintes palavras:
    – Vovô, tenha coragem, conte tudo a Pilar, ela merece saber, só assim Tio Atílio receberá as energias da filha que ele sabe que tem, mas que as missões determinadas pelo Grande Deus nesta encarnação, não permitiram que a visse crescer e se tornar mãe de seus netos.
    Pilar ao lado do avô, aguardava que o momento de devaneio passasse, agora mais tranquila, sabia que as respostas viriam, e tinha razão. Jonas começou dizendo:
    – Querida, vou te contar tudo que sei!
    E assim, acontecimento por acontecimento, Jonas detalhou o que sabia, concluindo que Pilar era filha de seu irmão Atílio. O fato de ter sido Anita a fazer esta revelação, o deixou absolutamente seguro. Repetiria a quem quisesse ouvir a afirmação.
    Pilar tentava digerir tudo que acabara de ouvir, ela não chegou a conhecer seu verdadeiro pai. Quando Atílio partiu, ela ainda era a bebê rejeitada pela mãe, que vivia sob os cuidados da avó Raquel.
    Após ponderar a real consequência de tantas revelações, Pilar afirmou:
    – Vovô, tudo isto que você acabou de me dizer, acredito que deva ser considerado como algo que todos devam saber, só assim, minha mãe terá a oportunidade de refletir sobre suas atitudes, e quem sabe, a paz que tanto desejamos seja alcançada.
    Jonas arregalou os olhos, ele imaginou que Pilar ficasse revoltada ou algo parecido, mas não que tivesse esta reação – centrada e lúcida.
    O que se passava a nível invisível era algo impossível de mensurar. À partir do momento que os jovens MÉDIUNS da Comunidade se uniram em um só objetivo, promover a paz entre as famílias, espíritos de Luz que a tempos aguardavam uma oportunidade, conseguiram realinhar energias em prol de auxiliar a concretização do desejo da maioria. Excetuando-se poucos integrantes da Comunidade da Grande Pedra que a séculos patinavam na insistência de cultivar sentimentos e atitudes de exclusão e arrogância, os outros, cederam tanta energia sutil que não só foi possível auxiliar a tarefa de Aimanon/Percilio de transformar o núcleo de bravos trabalhadores em um oásis de amor e parceria, como também, libertar Atílio do peso de não saber qual o real motivo de sua inseparável tristeza de não conseguir se aproximar dos filhos presenteados pelo Grande Deus e trazidos à vida por sua eterna companheira, Rosana. Ele sempre carregou a impressão que devia algo a alguém. Toda vez que tentava fazer carinho a um de seus filhos, imediatamente recuava e se entregava a tristeza de sentir-se um pai incompetente.
    No momento em que Pilar inquiriu Jonas a respeito de sua verdadeira origem, Atílio serrava um tronco que serviria para fazer um telhado em frente a porta de sua humilde casa, em Creta. Rosana observava ao longe, carregando o filho caçula, Samuel de seis meses. O rapaz trabalhador e justo, construiu com suas próprias mãos a casa da família, era um marido exemplar, mas as dificuldades que tinha, de sequer se aproximar das três crianças, era motivo de preocupação, tanto da esposa como dos fiéis amigos Fernando e Minelo.
    Naquele dia, Atílio confidenciou a esposa que não conseguia parar de pensar nos amigos e familiares que haviam deixado para trás. Rosana creditou as saudades dos irmãos, afinal, já faziam quase quinze anos que haviam se casado e partido em busca de uma vida tranquila, longe das investidas insanas de Laurinha.
    O casal gerou três crianças, dois meninos, Samuel e Lucas, em homenagem ao sobrinho que havia desparecido e ignoravam que estava vivo; e Carmem, a filha mais velha, muito parecida com a mãe, equilibrada e justa. Rosana havia deixado para trás os desequilíbrios causados pela dor de perder toda a família sob a espada dos bárbaros, tornara-se o muro que sustentava sua família, como também aconselhava e direcionava a vida de seus eternos amigos. Por sugestão da jovem, assim que chegaram a Creta, os três amigos se uniram para crescer juntos, juntaram as parcas economias que trouxeram, compraram especiarias de produtores locais e começaram a vender em um Mercado na periferia da cidade. Com o tempo, o negócio cresceu, proporcionando uma vida tranquila aos três amigos e suas famílias.
    Enquanto observava o marido trabalhar, naquele finalzinho de tarde de um domingo, a centenas de anos terrenos atrás, ela revia em sua tela mental tudo que ocorreu em sua vida desde o dia que decidiu perdoar Atílio e se entregar ao amor que sentia por ele. De repente, Samuel estendeu os bracinhos em direção ao pai como que querendo ir ao seu encontro. Rosana evitava aproximar as crianças do marido, ela sabia que ele não conseguia, por mais que tentasse, se sentir confortável perto deles. Ao parar um pouco sua tarefa, Atílio ergueu os olhos e viu o menino com a postura de querer ser aconchegado por ele. O rapaz fixou o olhar no rostinho rosado e uma onda de amor indescritível envolveu todo o seu ser, e em uma fração de segundos, ele já se via abraçado ao menino, chorando copiosamente, sob o olhar atônito de Rosana.

 

continua na próxima quarta-feira

 

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