Mykonos-64

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   O rapaz olhou-a laconicamente e pensou no motivo da tal conversa. Concluiu que com certeza, vinha com a mesma ladainha de não gostar de morar na caverna de sua família.
   Disse de uma só vez:
   – Se você quer insistir em mudarmos da caverna de meu pai, pode se levantar e continuar andando, eu não quero mais conversar a este respeito.
   Mirtes abaixou a cabeça e disse em um fio de voz:
   – Não é isso, ou melhor, é e não é. Eu não volto mais para Grande Pedra, estou infeliz lá, sinto saudades de minha mãe.
   Percilio arregalou os olhos, parecendo não entender a colocação da esposa.
   – Mirtes, desembucha, não estou entendendo onde você quer chegar.
   Ela ergueu a cabeça, olhou nos olhos do marido, que permanecia de pé, imóvel em sua frente e completou:
   – Eu fingi, não estou sentindo nada, o bebê está ótimo, penso que já tive a impressão que ele já se mexe.
    – Ainda é muito cedo para a bebê se mexer e quanto a sua mentira, eu já sabia, ninguém caminha como você caminhou esta manhã se estiver sentido algum desconforto. Peço que vá direto ao assunto, pois logo papai vai estranhar nossa demora.
  – Como já falei, não volto mais para aquele lugar horroroso, você pode voltar daqui, que eu me viro. Tenho certeza, que não demora, eu encontro Tio Claudius, e ele me levará de encontro a minha mãe, e quanto ao bebê, assim que nascer, eu mando alguém te entregar.
   Percilio sentiu todo o seu sangue ferver, imediatamente as maçãs do rosto ficaram vermelhos feito um pimentão. Ele gritou:
   – E Sibila? Você não pensa em sua filha?
   – Você quer que eu seja sincera? Não, não penso, ela ficará melhor sob os cuidados de suas irmãs, aliás, é evidente que minha filha não gosta de mim.
   A esta altura o rapaz sentia-se zonzo, não conseguia raciocinar, a única coisa que pensava era resolver aquele impasse de uma vez por todas. Afirmou:
   – Sibila é uma criança, é evidente que ela prefere ficar com minhas irmãs, afinal, você não se preocupa nem ao menos em alimentá-la direito, mas acho que você tem razão, é impossível continuar do jeito que está. Se é este o seu desejo, vou levá-la até a cabana da floresta, não me importo se sua mãe venha morar com você, mas veja bem, até a bebê nascer. Assim que ela vier ao mundo, entregue-a para Sara e vá embora.
   Mirtes abriu um sorriso de felicidade, esta solução, pareceu-lhe perfeita; era certo que se as duas não tivessem para onde ir, Claudius não as expulsaria. Levantou-se rapidamente e deu um longo abraço em Percilio, completou:
   – Obrigada, eu sabia que você era um homem sensato.
   Sem muita convicção, o rapaz retribuiu o abraço, dizendo a seguir:
   Agora vamos Mirtes, se quisermos chegar à casa de meu pai antes do anoitecer, precisamos nos apressar.
   Assim que se aproximaram o suficiente da pequena vila, perceberam, que algo havia acontecido, tal a movimentação em frente à casa de Merriot. Percilio apressou o passo, imaginando que poderia ser seu pai que tivesse sido acometido por um mal súbito, pois, reconheceu claramente a figura roliça de Dr. Alecsander entrando na casa, carregando sua inseparável maleta. Mirtes reclamou, dizendo que ficaria para trás. Percilio ultrapassou o pequeno jardim quase que correndo, entrou na residência sem se fazer anunciar, aproveitando a porta aberta. O primeiro cômodo, era justamente a sala, estava totalmente vazia. Ele parou dentro do ambiente, sentindo-se confuso, pensou:
   – Não posso entrar nos quartos, com certeza, é alguém da família que está doente. Vou procurar meu pai no armazém.
  Fazendo menção em sair, escutou um barulho de alguém que se aproximava, era Merriot.
  Após os usuais cumprimentos, o francês falou:
  – Vá até o quarto de hóspedes, onde você ficou quando passou a noite aqui com seu irmão. Seu pai está lá.
  – O que aconteceu com meu pai? Perguntou Percilio quase gritando.
  – Não se preocupe, seu pai está bem, é sua sogra, foi o Grande Deus que trouxe vocês aqui hoje.
  O rapaz pensou que ia desmaiar, tamanho o susto que levou, imediatamente se dirigiu ao quarto de hóspedes. Ao entrar, viu Sibele deitada na cama, totalmente inerte. Dr. Alecsander a examinava. Jonas, ao lado da cama, fez menção em dizer alguma coisa, mas desistiu. Afastou-se silenciosamente, fazendo sinal para que o filho o acompanhasse, de volta à sala de visitas, disse:
   – Filho, ela chegou aqui ontem totalmente desorientada, dizendo que fugia do marido que queria matá-la. Merriot a acolheu temporariamente para esperar que Claudius viesse até Semiris e pudesse levá-la com ele. Esta manhã, como demorava a sair do quarto, Ingrid, a esposa de Merriot bateu na porta insistentemente, como ninguém abria, chamou o marido, que sem outra alternativa arrombou a porta, encontrando-a desacordada do jeito que você viu.
   Por alguns momentos, Percilio tentou colocar ordem em seus pensamentos, a primeira coisa que pensou é que Sibele havia combinado com Mirtes encontrar-se com ela em Semiris esta manhã:
   – Mas como? Disse em voz alta, completando:
   – Isto é impossível!
   Jonas, sem entender, pediu que o filho lhe explicasse as últimas afirmações.
   Percilio, percebendo que divagava, respondeu:
   – Pai, depois te explico, você acha que ela tentou se matar?
   – Tenho quase certeza. Falou o pai e prosseguiu:
   – Merriot me disse que um frasco de veneno de cobras desapareceu de seu aparador. Assim que Sibele chegou, no estado que já te descrevi, ela aguardou um pouco até que um empregado chamasse o patrão e Merriot acredita que foi neste momento que ela se apossou do frasco que estava separado para que fosse entregue a Claudius.
   Neste momento, entra Mirtes, já ciente que a mãe se encontrava no quarto de hospedes, ela cruzou com o empregado que recebeu Sibele no dia anterior, este, reconhecendo a sobrinha de Claudius, contou-lhe tudo o que havia acontecido. Assim que viu o sogro e o marido conversando, começou a gritar, dizendo:
   – O que vocês dois estão fazendo aí, que não estão ajudando minha mãe?
   Percilio, olhou para a esposa, como se não houvesse entendido a insinuação. Disse:
   – Abaixe o tom Mirtes, sua mãe está sendo atendida pelo Dr. Alecsander, não podemos atrapalhar.
   Com os olhos injetados de sangue, Mirtes respondeu com os dentes quase cerrados:
   – Aquele velho enxerido? Com certeza, fará com que minha mãe piore, eu quero vê-la agora!
  Se precipitando em direção ao interior da casa, tomou o lado aposto ao quarto de hóspedes e foi direto aos aposentos dos donos da casa. Naquele momento, Ingrid descansava um pouco se recuperando do susto de ter imaginado que Sibele estivesse morta. Quando Mirtes percebeu o engano, já estava dentro do quarto, sendo seguida por Jonas e Percilio. Ao ver a senhora que ela não conhecia, disse:
   – Peço perdão pela invasão, mas é que procuro minha mãe que está sendo atendida pelo velho… doutor Alecsander.

continuação….

 

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