Mykonos-30

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CAPITULO 4

     O RETORNO DE AIMANON

     O tempo passou rapidamente, tudo parecia melhorar a cada dia. As crianças cresciam rapidamente, os adultos se ocupavam de seus afazeres. Parecia que o tempo de provações havia ficado definitivamente para trás. A Comunidade agora contava com cinquenta e cinco membros. Algumas crianças nasceram e nenhum adulto deixou a Grande Pedra depois que Tânia fugira.
    Mirla e Joninho tinham agora um irmãozinho que recebeu o nome de Lucas. O menino nasceu saudável, apesar da difícil gravidez enfrentada com muita coragem por Maila. Jonas modificou totalmente seu comportamento depois que o novo bebê chegou. Prosseguia comandando a Comunidade com firmeza e astúcia mas ao aconchegar seu novo filho no colo pela primeira vez, ele sentiu um aporte tão grande de amor que nunca mais ralhou com Joninho, nem tão pouco maltratou a esposa. Todos diziam que era um garoto especial, capaz de transformar homens calejados pela vida difícil em seres humanos serenos e de bem com a vida. Até os tios do menino – Josias, Rubens e Atílio – não escondiam o apreço que tinham pelo sobrinho, a ponto de Joninho se condoer de ciúmes.
    Luizinha e Laercio se tornaram pais de uma linda menina, deixando os avós e os tios tão felizes que não sabiam o que fazer para mimá-la. Deram-lhe o nome de Rute, em homenagem à avó paterna que padecera sob a espada dos invasores bárbaros. E assim, a vida prosseguia sem maiores atropelos, a não ser as inúmeras investidas de Tânia, que agora morava precariamente em Semiris. Ela teimava em voltar para a Comunidade, pois se sentia injustiçada, dizendo que fora um ato de loucura, mas que afinal não causou maiores consequências. Toda vez que Jonas ou algum membro do grupo da Grande Pedra cruzava com ela na vila, era sempre a mesma ladainha:
    – Por favor, me deem uma nova oportunidade, eu amo meu marido e quero viver ao lado dele até morrer.
    Isto se repetiu por quase dois anos. Apesar dos protestos de Ana e Rosana, Jonas pensou em recapitular de sua decisão de expulsá-la da Comunidade; mas Terêncio prosseguia irredutível, jamais moraria com ela novamente, era o que dizia para quem quisesse ouvir e em algumas oportunidades para ela mesmo. Vendo que não tinha outra saída, Tânia acabou por desistir de tentar retomar sua antiga vida, pensava em partir em uma embarcação que a levasse para bem longe daquele lugar que detestava. Antes que conseguisse seu intento, a peste bubônica a levou, os moradores da vila a encontraram morta no casebre que lhe serviu de lar, desde a insana tentativa de matar Ana.
    Assim que ficou sabendo, Jonas pediu que a enterrassem ao lado de seu irmão Alberto. Afinal, ela fora um membro da Comunidade, apesar de todos os deslizes que cometera. Ana orou para que seu espírito encontrasse o caminho da casa do Grande Deus, apesar da mágoa que ainda guardava, a esposa de Rafael era uma pessoa sempre focada em fazer o bem a todos. No primeiro domingo após a morte de Tânia, Jonas reuniu todo o grupo e anunciou que deveriam celebrar uma cerimônia em prol da memória da esposa de Terêncio. Todos concordaram e assim foi feito.
   Depois deste dia, Terêncio nunca mais foi o mesmo, remoía o remorso de não tê-la recebido de volta, pois no fundo ainda a amava. Apesar do apoio de Fernando e dos chás de ervas medicinais preparados por Rafael, ele logo caiu na cama para nunca mais se levantar. O que ninguém sabia era que o espírito de Tânia não conseguia se desprender do orbe terrestre e seu antigo marido foi um alvo fácil, ela o obsediou sem trégua, até o dia que ele se recusando a comer por um longo período, acabou morrendo de inanição. Naquela época, não se conhecia nenhum método intravenoso de alimentar alguém que se recusava a se alimentar por vias normais. Esta morte foi um baque para toda a comunidade, Jonas sabia que o espirito de Tânia estava por traz do trágico fim do amigo. Por inúmeras vezes, ele havia visto um vulto feminino ao lado do leito de Terêncio, apesar de não conseguir ver as feições, ele sentia que era ela. Dois dias antes do desenlace da morte, Jonas chamou Albertinho e disse:
  – Filho, preciso te pedir um favor!
  O menino muito solicito, respondeu:
  – Claro Tio Jonas, é só pedir que eu faço!
  Jonas, olhou para ele sem saber por onde começar, mas finalmente completou:
  – Albertinho, venha comigo até a caverna de Terêncio, preciso que você entre sozinho, se coloque ao lado da cama, e olhe atrás da cabeça do doente e me diga o que vê.
  O menino se assustou, porque sabia que se tratava de alguém que já morreu. Respondeu hesitante:
   – Mas Tio, eu tenho medo destas coisas. A única pessoa que já morreu que fico feliz em ver é meu pai e mesmo assim também fico com medo.
   Jonas, percebendo que estava pedindo demais, resolveu esquecer o assunto. Afinal que diferença fazia se tivesse a confirmação de sua desconfiança, não poderia dizer para ninguém. Neste momento, Joninho se aproximou do primo e sem saber o assunto que discutiam, falou:
   – Primo, você está com uma cara de covarde, aposto que papai está pedindo para você ir caçar comigo na mata.
   Jonas pediu cordialmente para que o filho se afastasse, e quando ia dizer para Albertinho esquecer o assunto, este se adiantou e disse:
   – Tio, Joninho tem razão, preciso deixar de ser covarde. Suba comigo e me espere na porta da caverna que eu entro e depois te falo o que vi lá dentro.
   Os dois subiram os dois lances de degraus e chegaram rapidamente até a entrada da caverna de Terêncio. Albertinho respirou fundo e entrou sozinho. Depois de alguns minutos, voltou com os olhos arregalados e disse para Jonas:
    – Tem uma mulher atrás da cabeceira de Terêncio, usa uma saia longa e um xale preto, eu não consegui ver seu rosto, mas acho que é Tânia.
    Jonas finalmente tinha uma confirmação de que suas visões poderiam ser partilhadas com outras pessoas que gozavam do mesmo dom que ele. A única vez que isto aconteceu foi no dia que partiram da Itália, a embarcação ia longe quando Mirla disse que tinha visto seu avô acenando do Continente. Como isto nunca mais se repetiu, poderia ter sido imaginação de sua filha. Mas desta vez foi diferente, não tinha dito nada para seu sobrinho, e ele viu exatamente a mesma pessoa que ele. Rapidamente, Jonas pediu para que Albertinho não comentasse nada do que tinha visto com ninguém. O menino respondeu:
     – Nem precisa pedir, eu não vou contar para ninguém!
     E se foi, feliz, por ter sido tão corajoso. O que Jonas não sabia é que Tânia havia percebido que o menino conseguiu visualizá-la, mas isto não fazia muita diferença, pois ela jamais conseguiria se aproximar dele porque a energia de Albertinho era totalmente diversa do da esposa de Terêncio. O mesmo acontecendo com Ana, Rafael e Rosana, apesar de tentar, ela não conseguiu se colocar ao lado de nenhum deles. Quando Ana orou pelo espirito de sua desafeta, Tânia sofreu um baque e foi empurrada para longe. Quando Terêncio morreu ela partiu junto, pois não encontrou guarita em nenhum habitante da Grande Pedra. Se Ana prosseguisse cultivando o ódio, a raiva, a vingança, com certeza seria um alvo fácil, o mesmo acontecendo com seu marido e Rosana.

continuação…

 

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