Constantinopla-47

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  Amigos queridos estavam todos lá, desde pescadores, até grandes mercadores, além de minha família toda, até Nuno e alguns primos parentes de Tio Firlias vieram da Grécia, inclusive Luca com sua esposa Cinara, haviam se casado a um ano e quando Nuno disse que Armanide iria se casar e o havia convidado para a cerimônia, fez questão de vir e participar, quando nos viu acomodados em uma das mesas, veio ao nosso encontro em companhia de sua esposa. Estava mais forte e com as feições mais amadurecidas.
    Suzana abraçou Cinara com muito carinho e desejando aos dois muitos filhos.  Cinara respondeu que o Grande Deus parecia ter se esquecido que seu maior desejo e o de Luca era exatamente este.
    – Minha filha – respondeu Suzana carinhosa – quando chegar a hora eles virão, tenha certeza disso, me casei com Aimanon  com menos de quinze anos e Armanide só nasceu quando fiz dezessete e à seguir mais onze vieram, apenas aguarde.
    Luca demonstrou toda sua alegria em nos reencontrar, o que para mim representou um alivio, pois muitas vezes me recordei seu jeito indefeso e triste da última vez que o vi, lamentei o rumo que a situação tomou, mas nada do que um dia atrás do outro, o que sabemos é muito pouco perante a Sabedoria do Grande Deus, por isso que desdenhar sua condução é algo insano, à medida que o que conseguimos enxergar, e deduzir, sempre nos chega distorcido com a luz difusa de nosso ego e de nossa consciência impregnada de temor e preconceitos.
    A festa prosseguiu maravilhosa, comida e frutas foram oferecidos à vontade, todos ajudaram à servir, a recolher e a lavar a louça, sem nenhuma diferença entre servidores e serviçais.  Naquela época sabíamos que em outras terras a escravidão era algo aceito com naturalidade, mas em nossa cidade e principalmente em nossa família, não havia nenhuma distinção de posição ou classe social.
    Entre todos os irmãos de minha mãe, Tio Nuno, sempre foi o mais rico e seus filhos homens, irmãos de Suzana, prosperaram muito mais, principalmente Tobias, hoje ele é o homem mais rico de Constantinopla, comprou a dez anos o estaleiro e o transformou em uma empresa que fabrica as melhores embarcações que navegam por estes mares.  Mesmo assim, não se vê em nenhum de seus filhos, traços de arrogância, pelo contrário, carregam a mesma leveza de espírito de meu tio, que um dia permitiu que sua única filha se casasse com um pescador humilde.
   Por volta das três horas da tarde a festa terminou, todos se despediram e se foram.
    Armanide me abraçou, e disse:
    – Papai!  O que quer que pudesse dizer em agradecimento a todos estes anos de amor e proteção, não corresponderia à verdade absoluta, então direi apenas:
    – Você é o pai mais maravilhoso do mundo!
    Falou tão alto que todos que ainda de encontravam no galpão se voltaram e antes que alguém pudesse dizer algo, correu para Suzana e novamente gritou:
    – Você é a mãe mais maravilhosa do mundo!
    À partir daí, outra festa teve início – todos os nossos doze filhos nos rodearam e começaram a cantar uma canção de ninar que sempre cantávamos para eles dormirem:
    “Alecrim…Alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado….
      Oh! Meu amor… Oh! Meu amor…
      Quem te disse assim…. Quem te disse assim… Que a flor do campo é o alecrim!
      Oh! Meu Amor…  Oh! Meu Amor…
      Abra a janela… e me traz um buquê!”
    Fizeram uma roda e nos colocaram no meio, aos poucos outros pais foram colocados no centro e os filhos de mãos dadas brincavam de roda. Foi um momento de amor e confraternização tão especial que não conseguirei descrever o que sentia de mãos dadas com Suzana no centro da roda.  O tempo parou.
    Armanide e Adolfo iriam ficar na casa do Porto até a alugarem para alguém e arrumarem os pertences de meu genro, apenas daqui a alguns dias se mudariam definitivamente.
    Voltamos todos juntos para casa.  Eu e Suzana, carregando a certeza que o Grande Deus faria com que nossa filha fosse muito feliz.
    Esta noite foi para mim de muito reflexão, quando todos adormeceram, sentei-me na sala sozinho, e só aí, com o reflexo da luz da lamparina bailando pelo ambiente, pensei no que Uruãn havia me falado naquele dia.
    Já sabia que estava vivendo um tempo excedente, sentia que outras obrigações me aguardavam, mas estava relutante, pois a mais cruel das provações é para um homem, vivendo sobre esta terra, crer e aceitar algo que permeia apenas suas intuições mais profundas.  Sabia que precisava nutrir sentimentos de desapego, pois caso contrário seria muito árduo encontrar a direção correta após meu corpo sucumbir.  Com estes pensamentos novamente intui em abrir o livro de Archimedes, quem sabe encontraria alguma resposta. Foi o que fiz, peguei o livro “Tratado da Vida após a Morte” e abri aleatoriamente de olhos fechados.  Abri os olhos lentamente e pousei-os na primeira linha da página esquerda e lá se lia : “A continuidade é Lei Natural, nada estacionado cumpre esta Lei básica que rege todo o Universo, assim como as árvores que à partir de uma semente se tornam imensas e perfeitas, os seres humanos obedecem o mesmo ciclo e assim como as árvores um dia acabam sua tarefa de fornecer frutos, sucumbem ao tempo e morrem.  Mas algo difere os homens das árvores : o espírito.  Ele carrega a inteligência e armazena o conhecimento, sofrendo uma ação contrária à do corpo, ou seja, a medida que lhe é permitido amealhar mais sabedoria, ele se torna mais sutil e busca com todas as forças de um jovem que está pronto para enfrentar a vida sozinho se desvencilhar do corpo que com o tempo se torna um grande empecilho. A tão temida morte é isso : traçou suas obrigações obedecendo as tarefas dadas, parte-se em busca de novas tarefas.”
    Li este trecho, fechei os olhos e  orei.  Agradeci ao Grande Deus a oportunidade de servir de esteio a esta família e me coloquei à disposição. Pronto à receber novas  missões. Guardei o livro e adormeci tranquilo ao lado de minha esposa.
    Dez dias se passaram do casamento de Armanide.  Artur, meu filho caçula começou a balbuciar as primeiras palavras e as crianças maiores se preparavam para seguir seus próprios caminhos.  Túlio com dezesseis anos partirá com Nuno para Grécia, meu sobrinho morava em Atenas e estudava engenharia.  Meu filho, também tendo o mesmo desejo, iria acompanhá-lo, os primos eram muito amigos e sei que partilharam a vida juntos até o desencarne de Nuno em 423 AC.  Os dois seguiram para Itália após concluírem os estudos e está registrado que muitas edificações Romanas tiveram a inteligência de meu sobrinho e de meu filho como gérmen.  Casaram-se com italianas e deixaram descendentes que se espalharam por toda Península Ibérica, Nuno goza hoje a vida terrena na América do Sul.  Túlio encarnou inúmeras vezes na Grécia e no Oriente Médio sempre seguindo as pegadas de seu tio-bisavô também de nome Túlio. Vive agora em Mykonos e se aproxima dos oitenta anos.  Sei que um dia novamente será meu filho.
    Após dois domingos do casamento, Armanide e Adolfo se mudaram definitivamente para seu novo lar.  No dia que chegaram, todos nos reunimos aqui em casa.  Catarina como sempre limpou a casa de Armanide e espalhou flores por todos os cantos, em especial madressilvas, pontuando a presença de vovó em nossas alegrias.
    Meu genro disse que haviam alugado a casa para um estivador de nome Dulcilio, amigo de seu pai e isto já lhes renderia uma boa soma, de resto, prosseguiria trabalhando como estivador.  Armanide se portava como uma verdadeira dona de casa, fez questão de preparar a refeição e servir a todos, estreou seu fogão novo e deu a Suzana uma grande satisfação, pois naquela época, as virtudes e vicissitudes das filhas eram sempre creditadas às mães.
    Catarina e Suzana se mostravam tão próximas quanto antes, a ponto de minha irmã me dizer algo, perante todos, que nos deixou perplexos, principalmente minha mãe.  Quando todos terminaram de saborear a deliciosa refeição preparada por Armanide, estávamos: eu, Suzana, mamãe, Catarina, Ahimon, Artur e Claudia sentados sob as arvores do pomar enquanto os mais jovens cuidavam das louças e Antron e Lucius faziam palhaçadas para as crianças menores.  A conversa versava sobre o tempo que passava muito rapidamente, rememoramos o dia do nascimento de Armanide e dos gêmeos.  Quando o assunto desenvolveu-se em direção ao envelhecimento, Catarina disparou com a mesma tranquilidade que fez no dia do meu casamento:
    – Aimanon, quando você partir, fique tranquilo, eu cuidarei de Suzana, me mudarei para sua casa e não deixarei que ninguém a aborreça.
    Todos riram, achando que era uma brincadeira.  Mamãe, ao contrário, ralhou:
    – Catarina, você não aprende, que conversa mais descabida!
    Eu entendi perfeitamente, sorri para ela e disse:
    – Obrigado Catarina! Partirei tranquilo!
    Todos riram novamente e mamãe desta vez virou-se para mim, exclamou colérica:
    – Aimanon, se não pararem com esta conversa vou embora agora!
    Silenciamos de imediato, sabíamos que mamãe sempre cumpria o que dizia.  Ahimon, falou:
    – Não se preocupe Dona Linizia, a conversa já se encerrou, não é Catarina?
    – Sim! Respondeu minha irmã – completou dizendo:
    – Mamãe preparei um lindo vaso de rosas brancas para você, não se esqueça de levar, está na sala de Armanide.
    Minha mãe olhou para ela, abriu um sorriso e agradeceu. Assim era Catarina, ninguém conseguia manter a sisudez diante dela.
    O dia transcorreu maravilhoso, Armanide finalmente já instalada e tudo pronto para a partida de Túlio e Nuno que aconteceria no dia seguinte.

continuação…

 

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