Constantinopla-45

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  Meu futuro genro se mostrava um rapaz temente ao Grande Deus e também dócil e humano. Armanide estava extasiada de tanta felicidade, quando soube que ele morava próximo ao Porto e trabalhava como estivador, falou sem rodeios:
    – Adolfo! Não quero morar longe daqui, mamãe precisa de mim para ajudá-la com as crianças.
    Suzana interferiu com razão:
    – Filha, não se preocupe, as crianças são uma tarefa só minha, você deve morar onde vocês dois acharem melhor.
    – Armanide – Adolfo interceptou serenamente – se este é o seu desejo construiremos uma casa aqui perto, eu alugo a minha e com isso podemos ter uma ajuda a mais, não me incomodo de caminhar todos os dias até o Porto.
    Laila interessada no assunto completou:
    – Adolfo, porque você não constrói a casa de vocês ao lado do pomar?
    Armanide e Suzana se entreolharam, e eu, percebendo a cumplicidade , falei:
    – Eu concordo plenamente com a sugestão de Laila.
    E assim foi, durante dois meses nos empenhamos em levantar a casa de minha filha.  No início do verão estava pronta,  tão bonita como a nossa, desta vez sugeri que fizéssemos mais quartos pois seriam seis crianças.
    Outro dia, pensando nisso, contestei o fato de termos feito apenas um quarto em nossa casa, mesmo eu já sabendo que seriam doze filhos, mas cheguei à conclusão que naquela época ao saber destas predições não acreditava da mesma maneira que acredito hoje, sem sombra de dúvidas.  Independente do tempo que levou, tudo se concretizou sem nenhuma alteração.
    Os noivos marcaram o casamento para após o aniversário de um ano de Artur, ou seja, daqui a vinte dias.  A cerimônia será no Templo Sagrado, e após, comemoraremos na casa de Artur e Claudia, pois eles fizeram questão absoluta de oferecer este carinho aos dois.  O Templo ficava no centro da Cidade e todos os convidados teriam mais facilidade de chegar até lá.
    O dia se aproximava rapidamente, na véspera, Armanide, Suzana, Laila e as crianças menores se hospedaram na casa de Claudia e Catarina.  Armanide e Laila ficaram na casa do Templo, Suzana e as crianças com Tica, pois minha esposa não queria perder esta oportunidade de usufruir da companhia de sua grande amiga.
    Fiquei sozinho com os meninos mais velhos.  Tentei me deitar cedo, porque o dia seguinte seria de muita emoção, mas o sono não vinha,  rolava na cama de um lado para outro, abri as janelas, pois o calor estava insuportável, mas não havia meio de conciliar o sono.  Desesperado, levantei-me e decidi ler, pois quem sabe assim me distraia e o sono chegava.  Fui até a sala, e sem ter trazido a lamparina, peguei um livro qualquer no escuro e voltei para o quarto, deitei novamente na cama e só aí olhei o título do livro: “Tratado da Vida após a Morte” de um pensador grego de nome Archimedes.
    Abri ao acaso e no alto da página esquerda lia-se: “Tudo transforma-se, nada desaparece, toda a indagação contraria a esta verdade está sujeita à minguar-se por falta de provas aceitáveis.  Baseando-se nisso, afirmamos que a morte não existe e que o corpo humano se transforma em outros elementos que se integrarão à Natureza novamente, voltarão transformados, isto numa repetição infindável.  Mas o que dizer do espírito que anima o corpo? Ele também sofre esta mutação perene?  A resposta é “sim”, ele sempre sofre alterações ao longo da eternidade, mas não é devido a reações químicas consequente das transformações geradas pela interação de elementos afins.  O espírito é imortal e sempre sofrendo mutações geradas pela cadeia de sentimentos cultivados por cada um.”
    Li este trecho, fechei o livro e pensei:
    – Mas como pode ser isso?  O sentimento é algo que vem e que vai, é lógico que quando cultivamos sentimentos de amor e união somos mais felizes, mas apenas isto, como isto pode gerar mutação ao espírito?
    Pensando nisso, adormeci e novamente me vejo no Jardim Encantado, diante das mesmas fontes, mas desta vez o banco onde estava Menéas se encontrava vazio, caminhei um pouco, admirando a beleza das flores, quando ao longe vejo alguém vindo em minha direção, e para minha surpresa vejo Minélus, meu primo e desafeto, de imediato pensei em recuar, mas quando tento me afastar sinto uma mão forte segurar meu braço, era Menéas, vestido novamente com aqueles trajes modernos, me fez aguardar a chegada de meu primo, desta vez sua expressão era mais serena, os olhos já não estavam vermelhos ejetados de sangue como o vi da última vez, seu semblante demonstrava candura e não ódio como me recordava.
    Menéas falou quando nós três nos colocamos lado a lado:
    – Aimanon – este espírito que está à sua direita é seu primo Minélus que ao desencarnar da última vida, nutria por você e Suzana, ódio e ressentimento – sentimentos desprezíveis, que leva o espírito a adquirir a aparência que bem se recorda.  Agora, depois de compreender que estava errado e purificar suas emoções, se apresenta totalmente diferente, e isto se deve apenas a sua vontade de mudar a frequência vibracional gerada pelos sentimentos decorrentes de seus pensamentos.  Você há de concordar comigo que ocorreu uma mutação em seu espírito!
    – É claro que sim!.– Respondi como que me desculpando pela falta de discernimento – mas perguntei curioso:
    – Mas sempre algum sentimento negativo nos acomete, e isto é quase impossível de controlar.
    – Aimanon, isto faz parte do dia a dia de cada um, mas se não forem combatidos tenazmente, as marcas ficarão cada vez mais fortes e difíceis de serem retiradas, alterando totalmente o caminho que o Grande Deus traçou para aquele filho, pois estas nódoas acabam impedindo que tudo que foi determinado para aquela vida se cumpra. Por exemplo:
    – A vida de Suzana – se ela cultivasse sentimentos de ganância jamais teria escolhido um pescador para se casar, e não poderia trazer estas doze crianças à vida, pois estava determinado e acordado que elas seriam dos dois.  Isto alteraria o seu espírito e o levaria ao total desalinho com as Leis da Natureza, tendo que perder um tempo precioso para novamente se realinhar.
    – Portanto, meu amigo – prosseguiu sabiamente – os sentimentos provocam sim, mutações no seu espírito, por menores que sejam, mas como a evolução divina é perfeita, nenhum filho é amado mais pelo Grande Deus que outro, todos um dia transformarão o seu espírito através de seus próprios esforços e adentrarão à casa do Grande Sábio.
    Acordei confuso, suando muito, mas com a grande dúvida esclarecida. Menéas era realmente um amigo muito querido.  Pensando nisso, me recordei do sonho anterior onde me falou que agora se chama Antônio e mora na Pátria do Evangelho. Onde será este lugar?  Mas tenho certeza que independente de onde seja, ele prossegue levando sabedoria e amor a todos.
    O sol já havia raiado, quando me dei conta percebi que estava atrasado, pois o casamento estava marcado para as dez horas.  Levantei apressado, me banhei, tomei o desjejum em companhia de Germano, Túlio e Ruan, pois Rômulo era tão amigo de Lísias, filho de Antron, que mal aparecia em casa, praticamente morava na casa de meu irmão.
    Todos prontos, nos pusemos a caminho. Descrever o que senti durante o percurso é explicar algo inexplicável.  Toda a minha vida foi revista momento a momento, me vi sentado à beira do rio experimentando a angústia da perda iminente, senti o perfume do aroma exalado pelos cabelos de Suzana na noite de núpcias, revi o sorriso de Armanide no dia que ela deu o primeiro passo sozinha, saudei novamente à chegada de Claudia e sua família, ralhei com mamãe sua postura incompreensível com Suzana, acolhi e agradeci a chegada de cada um de meus doze filhos.  O que senti talvez seja algo que se assemelhe a dever cumprido, mas não sei se é bem isso.  Cada lembrança trazia um instante de reflexão, dando ao meu espírito algo que parecia que o levava a querer separar-se do corpo.  Como já disse, algo inexplicável.
    O percurso que geralmente consome quarenta minutos, hoje me pareceu ter levado horas, tal o meu grau de desprendimento da realidade.  Quando ao longe avistamos o Templo Sagrado me emocionei como nunca havia acontecido antes, meus olhos se encheram de lágrimas, aquela construção sempre me despertou um grande sentimento de respeito e muitas vezes, agradeci ajoelhado no grande salão as benesses recebidas, mas também não me sentia totalmente confortável em seu interior, acredito que temia pelo fato que mamãe, vovó e algumas tias sempre repetirem que lá era a casa de todos os Deuses e não de um só.  Quando adentrava naquele recinto frio, de aspecto austero, pedia autorização a quem quer que lá habitasse para orar apenas ao Grande Deus, e por mais estranho que possa parecer, a resposta era sempre:
    – Aimanon, esteja sereno, o Grande Deus está aqui como em todos os outros lugares, seu temor é infundado, os moradores deste lugar sagrado são todos amigos.

continuação… 

 

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