Constantinopla-43

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    Assim que a porta se fechou, Suzana se voltou para mim e disse:
    – Então –  Armanide  foi pedida em casamento e você nunca me falou?
    Fiquei constrangido, mas tentei me desculpar da maneira mais dócil possível:
    – Querida, imagina eu recebendo um pedido de um pai acompanhado de um garoto que mais parecia um débil mental, me solicitando autorização para que seu filho se casasse com nossa filha? Levei na brincadeira e me esqueci do assunto.
    – Aimanon, você não tinha o direito de fazer isso, pelo que sei isto ocorreu na mesma época que ela foi pedida em casamento por Luca.
    Respondi engastado:
    – Na semana anterior!
    Suzana sabiamente decretou:
    – Esta bem Aimanon! Mas acho que você deveria conversar com nossa filha esta noite e contar tudo, com todos os detalhes,  seja sincero, não omita nada, pois pode colocar em risco a confiança que ela deposita em você.
    Ouvi este alerta cabisbaixo, sabia que tinha tomado uma decisão baseada apenas em preconceito e que poderia gerar consequências desagradáveis.  Pedi humildemente auxilio de Suzana:
    – Querida, participe da conversa, tenho receio da reação de Armanide.
    Sabia que o que estava por vir era algo muito difícil de enfrentar, pois ocultei de Armanide o amor de alguém por ela.  Suzana, novamente mais segura que eu respondeu:
    – Aimanon – apenas demonstre seu amor e vontade que ela seja feliz.
    Os minutos passaram lentamente até que ouço a voz de Armanide vinda do jardim, me ajeitei na cadeira, simulei tranquilidade, esperei que ela entrasse.  Primeiro entrou Laila, depois Ruan e finalmente quando ela sorridente bate os olhos em mim, fica séria e diz – me fixando intensamente:
    – Papai aconteceu alguma coisa? Vejo que está preocupado?
    A oportunidade de me redimir se apresentava, mas não sabia como começar – engasguei – disse apenas que era impressão dela, mas que estava tudo bem, tentando ganhar um tempo.  Minha filha calou-se, se dirigindo ao quarto das meninas.  Estava me sentindo a última das crianças mentirosas quando Uruãn me chama:
    – Aimanon – no dia que Adolfo e seu pai fizeram o pedido para desposar Armanide e você respondeu que só considerariam pedidos após seu aniversário de dezoito anos, na verdade, a responsabilidade é toda minha, fui eu que te induzi a dizer aquilo, porque sabia que só agora os dois estariam prontos para iniciar sua tarefa.  Diga a verdade a sua filha, tudo, até o que acabo de lhe dizer, não sofra mais por algo que não fez.
   Um jato de ar fresco invadiu meu corpo, quanta alegria em saber que o egoísmo, algo tão abominável, não foi o que me moveu naquela ocasião!
    Pedi que Suzana chamasse Armanide, pois eu a aguardava no jardim para conversarmos. Sentei-me no banco embaixo das primaveras e pensei : – Grande Deus, como a vida é uma engrenagem perfeita!  Tudo comandado por seus dedos ágeis, sem possibilidade de engano.
    Quando retomei minha consciência, Armanide já se encontrava sentada ao meu lado.  Olhei ternamente para seu rosto sereno e falei com o mais puro desprendimento.
    – Filha, papai esta sim, preocupado, você tinha razão, mas agora preciso te dizer o motivo de minha angustia, vou começar do fim para o começo, acho que será mais fácil para mim.
    – Não se preocupe papai – disse Armanide – seja o que for pode contar com minha compreensão.
    – Assim que você entrou no quarto, após me perguntar se eu estava bem, meu amigo invisível apareceu e me disse que em uma ocasião a quase três anos atrás, fui induzido por ele a dizer a um jovem e seu pai que vieram até a casa de Menéas pedir sua mão em casamento que eu e sua mãe consideraríamos pedidos desta natureza só após seu aniversário de dezoito anos.
    A dificuldade estava estampada em minhas feições, mas enfim, consegui tirar este peso de minha consciência.  Após alguns instantes de silêncio mortal, minha filha se manifesta:
    – Papai – mas porque tanta preocupação, tenho certeza que se eu soubesse não aceitaria, afinal, acho que nem tinha quinze anos.
    – Foi uma semana antes de você aceitar o pedido de Luca – eu completei – disposto a não ocultar absolutamente nada.
    – Bem que percebi que você ficou exageradamente tocado por eu ter aceito o pedido de Luca, mas papai, isto já passou e não sei porque resolveu me dizer isto agora.
    – Porque… – busquei as palavras – hoje o mesmo rapaz que me procurou esteve aqui, e se dizendo sabedor que é o dia de seu aniversário de dezoito anos, reiterou seu pedido de casamento dizendo que aguardou todo este tempo ansioso por este dia chegar.
    Ela nada respondeu de imediato, meditou um pouco e falou segura:
    – O que você respondeu?
    – Eu e sua mãe pedimos que voltasse amanhã de manhã que só você poderia lhe dar a resposta para o seu intento.
    Armanide abriu um largo sorriso, me abraçou e disse:
    – Papai, você já podia ter dito “sim”, pois tenho certeza que neste momento ele está sofrendo muito.
    Fiquei perplexo com a reação de minha filha e não poderia perder a oportunidade de entender aquele mistério.
    – Você não quer ao menos saber quem é?
    – Não papai – eu já sei.
    Então ele mentiu para mim, com certeza já se encontraram, talvez sem o meu consentimento.  Algo mudou no meu íntimo, falei agressivo:
    – Armanide, você se encontra as escondidas com ele?
    – Claro que não papai – Uruãn me disse, no dia que me neguei a partir com Luca para Grécia, que meu marido me pediria em casamento no dia do meu aniversário de dezoito anos.
    As perguntas me vinham aos milhares, mas comecei pela mais óbvia, pois ainda não havia entendido que minha filha também era médium.
    – Como você sabe que meu amigo invisível se chama Uruãn, se nunca disse a ninguém?
    – Mas ele sabe seu nome e me falou! – respondeu Armanide como se eu fosse um parvo.
    – Está bem!  Ele também te contou quem é o pretendente? – Perguntei arrogante.
    – Não papai, mas acho que é aquele rapaz, sobrinho de Tibério que ajudou a construir nosso quarto.
    Parou de falar – sem dar maiores explicações, e eu, ainda não satisfeito perguntei ansioso:
    – Porque acha que é ele?
    – Papai se não for ele, não tem problema, minha resposta continuará sendo “sim”, pois confio em Uruãn, assim como você.
    – Você gostaria que fosse ele?
    – Sim papai, acho que eu tinha uns onze ou doze anos quando fomos até sua casa, perto do Porto, eu olhei para ele e senti meu coração saltar como nunca havia sentido, apesar de tio Antron ter dito naquele dia que ele era comprometido, acho que alguma coisa aconteceu para que ele não se casasse, pois, esta noite sonhei que eu e ele estávamos no Templo Sagrado nos casando.
    Olhei enternecido para minha filha, abracei-a forte, beijei sua fronte, e disse:
    – É ele mesmo, amanhã te contará os detalhes de tudo que aconteceu após o dia que esteve aqui.
    Armanide deu um grito, que até hoje, passados quase três mil anos ressoa nos meus ouvidos quando me recordo desta tarde em Constantinopla. Levantou-se e entrou em êxtase dentro de casa, gritando:
    – Mamãe, mamãe, vou me casar com o homem que amo!

continuação…

 

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