Constantinopla-38

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    – Quando aqui cheguei – prosseguiu Artur – meu coração me dizia que a encontraria, mas após uma semana, conversei com minhas três tias e nada.  Todas as primas em idade de casar já estavam comprometidas.  Um dia, prestes a voltar para Creta, meu primo Tobias, irmão de Suzana, me falou sobre Claudia, que já tinha dezoito anos e recusado muitos pretendentes. Assim que falou seu nome, sabia que era ela.  Corri até a casa de Tia Adele e a interroguei sem dó, precisava saber tudo sobre ela, conversei também com Tia Lucia e Tia Adelaide, cada uma sabia um pouco mais.  Múrcio conhecia um dos pretendentes rejeitados, herdeiro do estaleiro onde todas as grandes embarcações são construídas, o rapaz mais rico da cidade.  Quando fiquei sabendo disso, pensei:
    – Ela só pode ter alguma doença e não quer dizer a ninguém, talvez esteja às portas da morte.  Mesmo assim, algo me dizia que só podia ser ela.  Pedi que minhas tias conversassem com Linizia sobre meu intento, mas quando soube que ela não havia concordado, mas iria pedir a opinião de Aimanon, achei que havia mesmo algo errado.  Quando Tia Adelaide me deu a noticia, que Suzana havia pedido, por solicitação de Linizia que marcasse o dia, tive certeza absoluta que Claudia diria sim, e foi o que ocorreu.
    Artur parou emocionado, olhou para minha irmã e falou:
    – Obrigado por ter concordado, ainda não tinha tido oportunidade de agradecer!
    Olhou para minha mãe:
    – Obrigado Linizia por permitir que pudesse ser seu genro!
    Todos aplaudimos emocionados, foi um momento de confraternização inesquecível.  Como pessoas totalmente diferentes se encontram por acaso e tecem tantas histórias de auxilio e amor que parecem ter sido elaboradas pelo mais inspirado escritor?
    Meu tio ficou mais dois dias na cidade.  Artur o hospedou na casa do Templo e lhe contou sobre nosso trabalho junto às famílias necessitadas.  Ele fez questão de conhecer a casa de Menéas e se surpreendeu com a quantidade de pessoas que eu atendia todos os dias.  No dia de sua partida, já no porto, falou se dirigindo a mim e Artur.
    – Filhos, agora compreendo um pouquinho sobre o que Marco sempre tentou me explicar, e eu, com minha turrice nunca consegui entender. Se não existirem pessoas como vocês três, como o Grande Deus poderia se fazer ouvir?  Se a grande maioria das pessoas são ignorantes como eu?
    Ele partiu, dizendo que voltaria no próximo ano, fomos para nossas casas com a certeza da proteção e do auxilio vindo do Alto, vivificado de uma tal maneira, que nada nem ninguém poderia nos convencer do contrário.

                                                                                     *****

 

CAPITULO 4
ARMANIDE SE CASANDO ?
    Três anos se passaram, meu tio faleceu alguns meses após esta visita, de tifo,  como sua esposa Mariene.  Seus filhos assumiram seus  negócios que se tornavam cada vez mais prósperos, meu primo Saulo está em Constantinopla vendo a possibilidade de expandir seus negócios em nossa cidade.  Chegou ontem em companhia de Saul, seu irmão e dois sobrinhos, filhos deste, Luca e Rômulo de dezessete e vinte anos.
    Artur nos avisou domingo que chegariam esta semana e nos convidou para um almoço na casa do Templo amanhã.  Nestes últimos três anos tivemos mais duas filhas: Ligia e Lia.  Completando oito crianças, quatro meninas e quatro meninos.  Armanide já tinha à muito completado quatorze anos.  Era a filha mais prestativa e solicita, mas a mais geniosa e teimosa, eu a classificava como uma mistura de Tica e Antron.  Quando dizia isto, Suzana se aborrecia e dizia que ela era especial, diferente de todos, como cada um de nossos filhos.
    No mês passado, ocorreu um episódio que me deixou apavorado.  Estava na casa do rio atendendo doentes; quando entra um homem de meia idade, acompanhado de um garoto que mal tinha saído dos cueiros, imberbe, de olhar furtivo que fugia do meu insistentemente.  Quando pedi que me dissessem o que os havia trazido – tinha certeza absoluta que o rapaz tinha algum problema de saúde, por pouco não disse: – Que sintomas tem seu filho ?
    Quando o homem começou a falar, com inúmeros rodeios, senti que o assunto era outro, finalmente, ele disparou:
    – Meu filho gostaria de desposar sua filha Armanide!
    Quase cai da cadeira, fiquei paralisado, minha cabeça rodava e nada me ocorria como resposta, mas acho que Uruãn novamente veio ao meu socorro, meus lábios pareciam moverem-se sozinhos e as palavras saiam como que comandadas por outra consciência:
    – Meu jovem, Armanide ainda não esta preparada para casar-se, eu e sua mãe combinamos que só consideraríamos pedidos de casamento depois de seu aniversário de dezoito anos – bem que gostaria de ter dito vinte e oito anos – mas foi isso que fui induzido a dizer.
    Eles se despediram e saíram visivelmente decepcionados. Eu ria sozinho – que susto… – Suzana já havia me alertado sobre esta possibilidade, mas eu não estava preparado, adiava pensar no assunto. Agora tenho muito tempo para me acostumar com a idéia.
    Nem tampouco havia passado este susto e outra surpresa me aguardava, mas desta vez não tive como impedir.  Armanide tinha quase quinze anos, era linda, culta, prestimosa, carinhosa e principalmente livre, nós sempre permitimos que nossos filhos, não só participassem das nossas decisões, como também expressassem suas queixas e desejos.
    A reunião na casa de Artur foi de muita alegria e confraternização, meus primos eram tão amistosos como meu tio. O fato de reverem, o velho amigo, os deixou muito satisfeitos.  Todos pareciam que já se conheciam a muito, tal a empatia que reinava entre os presentes.  Percebi que Armanide conversava animadamente com Luca, o filho mais novo de Saul, mas em nenhum momento percebi algo que denunciasse o que estava por acontecer.  O rapaz era louro, alto, de olhos tão azuis quanto os dela, pelo que meus primos disseram era o braço direito do pai e foi o neto preferido do avô.  Era o mais trabalhador e também o mais interessado pelos estudos, tanto dos antigos filósofos, como arquitetura grega e astronomia, apesar de trabalhar com sua família com afinco e responsabilidade.
    Suzana, como mãe, me disse que sentia nossa filha diferente, mais alegre e solicita nos dias posteriores a esta reunião familiar; eu, por outro lado, não dei atenção, pois me recusava a pensar que ela já era uma mulher e nem tampouco comentei com minha esposa o episódio do pedido de casamento, simplesmente tentei esquecer o fato.
    Na semana seguinte soube através de Artur que eles decidiram se estabelecer na cidade e Saul pediu para ir até minha casa para uma conversa, antes de partir para Grécia.  Absolutamente nada do que estava por vir passou pela minha cabeça.  Avisei Suzana que ele viria para se despedir e no sábado seguinte, no final da tarde, recebo a visita de meu primo. Estranhei o fato de se fazer acompanhar apenas por Luca, seu filho mais novo.
    Armanide estava na casa da avó, com Laila e Túlio, ajudando a ultimar os preparativos do casamento de Triciana que seria breve.  Meu primo e seu filho se assustaram com a quantidade de livros que possuía.  Luca me perguntou se já tinha lido todos, respondi inocentemente:
    – Não só eu, como Suzana, Armanide, Túlio e Germano.
    Ele abriu um largo sorriso, dizendo:
    – Tio, também gosto muito de ler, mas com certeza não li tantos livros assim durante toda minha vida.
    Suzana serviu o chá e nam com queijo fresco e geléia.  Sentou-se conosco e senti que havia um ar de preocupação em sua fronte, que eu percebia, mas não compreendia.  A conversa se desenrolou amena. Quando o assunto se esgotava e a refeição já tinha sido saboreada, pensei que iam se despedir e partir, mas Uruãn me soprou no ouvido:
    – Aimanon, prepare-se!
    Levei um susto, mas antes que pudesse pensar no porque deste alerta.  Saul me olhou com firmeza e disse aos borbotões:
    – Aimanon, Suzana.  Nós viemos aqui hoje para pedir a autorização de vocês para que meu filho Luca se case com Armanide, sua filha.
    Olhei para Suzana, com certeza pálido, pois senti meu rosto intumescer e meus músculos enrijecerem e se tornarem de pedra.  Antes que pudesse repetir o mesmo discurso dirigido ao outro pretendente, a porta da sala se abre e entra Armanide sorridente.  Meu cérebro totalmente paralisado e nem sinal de Uruãn.  Minha filha cumprimentou Saul rapidamente, mas quando seus olhos encontraram o de Luca, pensei:
    – Acabou-se, não há mais nada à fazer.  O mesmo olhar apaixonado que Suzana me dirigiu no dia que Tio Nuno me disse que gostaria que eu fosse seu genro. Todo o meu amor por Suzana passou como um filme pela minha cabeça.  Neste momento, quando recobrei a razão, percebi que todos olhavam para mim, foi Armanide que com sua usual presença de espírito, falou:
    – Papai, vejo pela sua expressão que já fui pedida em casamento!
    Olhei para ela com vontade de colocá-la no colo e dar-lhe umas palmadas,  mas me contive.
    – Armanide – falei com os dentes cerrados – então você já sabia que seu primo Luca pretende se casar com você?
    Sem se alterar, ela respondeu:
    – É claro que sim papai e já aceitei, pois se não fosse assim eles não teriam vindo aqui hoje.
    Suzana percebendo o meu embaraço veio ao meu socorro.
    – Meus filhos – disse ela – já que é da vontade dos dois e Armanide tem quase quinze anos, a mesma idade que eu tinha quando me casei com seu pai – me olhou com firmeza – acho que só nos resta concordar.
    Os dois se abraçaram e se beijaram na nossa frente!  E eu, nem ao menos tinha dado minha opinião.  Saul nos disse que voltariam para Atenas, para preparar as mercadorias e os equipamentos que necessitariam, pois já haviam comprado cinco murtas no Mercado de Marcentália e Luca seria o responsável pelos negócios da família nesta cidade.  Apenas Rômulo e Saulo iriam com ele, Luca ficaria com Claudia e Artur, hospedado na casa do Templo, pois teria que encontrar uma residência ampla para viver com Armanide, que interpelou feliz.
    – Quero morar em uma casa bem grande, pois queremos ter muitos filhos, não é Luca?
    Meu sobrinho olhou para ela, respondeu que sim, mas percebi claramente que quem daria as ordens naquela família, seria ela, assim como é aqui, pois ainda não tinha assimilado a decisão de Suzana de aceitar o casamento sem me consultar.
    Quando os dois se foram, fiquei amuado e sombrio, não conseguia aceitar que minha querida filha partiria para formar sua própria família.  Sai sem rumo, a noite já tinha chegado e a escuridão tomava todos os cantos, a lua nova não tinha força suficiente para trazer luz à Terra.  Sentei-me em uma pedra, minha velha conhecida, orei ao Grande Deus, pois me sentia um verme, o sentimento de posse, o ciúme, a inflexibilidade, o temor, a tristeza, me invadiu de uma tal maneira que não conseguia descrever o quanto me fazia    sentir insignificante.  Acho que fiquei ali por uma hora, apenas orando e tentando me purificar.  A noite escura  parecia  me acolher com seu manto negro.  Foi quando visualizei um grande clarão à minha frente, meus olhos não conseguiam fixar no local de onde ele se refletia.  Passados alguns segundos de perplexidade, distingui o vulto de uma pessoa, tentando identificar quem era, reconheci o velho Menéas, estava com a aparência tranquila de sempre, me olhou sorrindo, falando pausadamente:
    – Aimanon, meu amigo – há tempos não te vejo tão triste, ou melhor, desde o dia que te encontrei chorando pelo próximo andejo de seu pai, meu amigo e pai Simeão.

continuação…

 

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