Constantinopla-20

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    Pegamos alguns livros e folheamos, eram imensos tratados em latim e grego de vários escritores da antiguidade, muitos deles nunca foram do conhecimento dos povos que viveram após à vinda do filho de Deus.  Meu tio deve ter tido muito empenho e gasto muito dinheiro para amealhá-los, e eu me sentia eternamente grato por este gesto de amor e carinho, mal sabia, que tinha sido uma atitude orientada por servidores do Grande Deus, para que eu pudesse cumprir minha missão com mais concretude.  Apesar desta interferência do alto, meu tio poderia ter se negado a executar, mas ele não o fez.  A certeza na existência de uma inteligência superior guiou seus passos.
    Na manhã seguinte, fui pescar como de costume, após vender os peixes, pedi que Antron me acompanhasse à casa de Menéas, no que ele protestou:
    – Aimanon, tenho medo desse homem, um dia ele me disse que eu deveria ser mais curioso com relação à existência de tantos pássaros no céu e de tantos peixes no rio.  Eu tinha doze anos e desde então nunca mais me aproximei dele.
    Fiquei surpreso por esta revelação que eu desconhecia, mas serenamente falei:
    – Antron, não se preocupe, gostaria apenas que você me auxiliasse a trazer um móvel que Menéas me ajudou a fazer para poder guardar os livros que Tio Elias nos deu.
    Me pareceu aliviado, disse:
    – Ainda bem que é isso, porque se fosse para que ele insistisse naquela conversa de prever o futuro eu não iria.
    Olhei para meu irmão e pensei:
    – Porque será que algumas pessoas têm tanta dificuldade de entender algo tão simples, ele acredita na existência de um Deus único, mas só isso. Porque ele não consegue concluir que ele pode sim, transmitir a nós, seus filhos, predições de acontecimentos futuros?
    Antron interrompeu meus pensamentos, dizendo:
    – Irmão, porque você é tão diferente de mim? Você tem muita facilidade de compreender mistérios que para mim são impossíveis de aceitar, já pensei sobre o motivo dos pássaros colorirem o céu e os peixes viveram na água, não consigo acreditar em algo que possa ter tanto poder a ponto de ser o responsável por tudo isto, nem mesmo o Grande Deus que às vezes acho que só existe para ficar mais fácil fazermos nossos pedidos a um só Deus ao invés de vários Deuses, ele é como se fosse um amigo para nos auxiliar nas horas que necessitamos, só isso, não sabe o futuro e muito menos criou absolutamente nada que esta sobre esta terra que vivemos e morremos.
    Meu irmão não acreditava na força imensurável do Grande Deus, mas para mim era algo tão real que não existia nada que me demovesse, daí me lembrei das palavras de Menéas dizendo que não deveria partilhar de minha crença com aqueles que não acreditassem porque seria confundido com um demente. Pensando nisso disse a Antron :
    – Antron, você é muito jovem e há tempo para tudo, o que te peço é que utilize sempre sua inteligência ao tirar qualquer conclusão sobre o por que de estarmos aqui vivendo, conversando, pescando e principalmente termos nascido na mesma casa. Não aceite nada que não tenha antes passado pelo crivo da razão embasada por muita meditação inteligente.
    Antron, retrucou :
    – Aimanon, você e Catarina são diferentes, tem mais facilidade de entender tudo, isto porque sentem de um modo diferente tudo o que se apresenta diante de seus olhos, portanto, se você quiser me explicar como você enxerga tudo isto, eu não mais te deixarei falando sozinho, ouvirei e usarei minha inteligência para meditar sobre o que me disser e não se preocupe, jamais direi nada para ninguém, mesmo se não concordar.
    Meu coração deu saltos de felicidade, afinal meu irmão deve ter chegado à conclusão, que sem ouvir, não teria nada ao qual se basear para tirar suas próprias conclusões.
    Chegamos rapidamente à casa de Menéas, pois era muito próxima ao mercado de Marcentália, onde vendíamos nossos peixes, ele nos recebeu com um sorriso e nos disse:
     – Vejo que já recebeu os livros de seu tio e fico muito satisfeito em também recebê-lo em minha casa menino Anton.
    Meu irmão o cumprimentou friamente, recusando-se a aceitar seu oferecimento de partilhar uma xícara de chá. Fiquei muito constrangido e disse :
    – Meneás, Suzana nos aguarda, curiosa com a surpresa que eu ainda não lhe revelei, hoje não poderemos aceitar seu convite.
    Quando Antron viu o móvel se surpreendeu com o capricho dos detalhes, Menéas fez diversos entalhes na madeira com desenhos e inscrições indecifráveis, mas eu sabia que se referiam à sapiência do Grande Deus.  Demoramos mais tempo que imaginávamos para transportá-la, pois era grande e pesada, apesar de termos o auxilio de uma manilha, espécie de biga que Menéas nos emprestou.  Suzana ficou radiante com a surpresa, colocamos o móvel na parede em frente à porta da sala de modo que fosse vista em primeiro lugar por todos que chegassem.  As quatro prateleiras ficaram repletas de livros e os escritos ficaram em uma caixa com tampa colocada sobre a tábua inferior.  Quando terminamos a arrumação, Suzana me disse :
    – Obrigada, meu amor, ficou lindo, à partir de amanhã à noite vamos começar à lê-los um a um.
    E foi o que fizemos, no dia seguinte apanhamos um livro ao acaso e começamos pela primeira página, era um tratado de Ácmon , um grande filósofo grego que ainda vivia e aquele livro era uma cópia de seus primeiros estudos condensando ensinamentos e nos dando sua visão sobre a criação das estrelas, do sol, da lua, da nossa Terra e também afirmava que existiam outros mundos habitados como o nosso.  Era uma cópia, provavelmente confeccionada por um de seus alunos, mas via-se o capricho das letras e a preocupação em se deixar claro que eram ensinamentos provenientes do grande sábio Ácmon, mas que ele mesmo afirmava tê-los recebido diretamente de uma energia superior que qualificava como algo invisível, impalpável, mas que se ligava diretamente à sua mente e o fazia tirar aquelas conclusões tão revolucionárias para à época.  Dizia que as estrelas e tudo que vemos no céu foi fruto de uma grande explosão, sem precedentes, e que quando a poeira se dissipou tudo estava formado, inclusive esta terra que vivemos, que ainda demorou centenas e milhares de anos para nos receber, isto para que pudesse estar pronta para nos fornecer água e alimento para sobrevivermos e nos multiplicarmos.
    Eu e Suzana lemos todo o livro. Catarina se juntou a nós, apesar de ainda não ter completado treze anos eu já à enxergava como uma mulher adulta e algo me dizia que estes conhecimentos lhe seriam muito úteis no futuro.  Mamãe começou a implicar com suas prolongadas ausências e um dia em um acesso de mal humor sugeriu que se mudasse de vez para nossa casa.  Catarina chegou em casa aos prantos e nos contou o motivo de tanta intransigência, não estava conseguindo fazer seus afazeres e os de Claudia, que com a proximidade do casamento, já não cumpria com suas tarefas.  Mamãe achava natural esta postura de Claudia e exigia que Catarina não só auxiliasse nos cuidados com as meninas menores enquanto ela, vovó e Lucius estavam na plantação, como fizesse o jantar e cuidasse da louça, tarefas que sempre foram de Claudia, com isto não lhe restava tempo para vir até em casa e naquele dia havia deixado de limpar o fogão, então mamãe explodiu emitindo aquela frase que a havia deixado profundamente magoada.  Eu e Suzana ouvimos o desabafo e eu disse tentando acalmar minha irmã:
    – Catarina, em primeiro lugar tranquilize-se, assim não conseguirá raciocinar.  Depois se coloque no lugar de mamãe, sinta o que ela está sentindo, sua filha mais velha, que por dezessete anos compartilhou com ela todos os dias que fizeram parte desta etapa, está prestes a partir.  Com certeza está triste, mas a força das circunstâncias a impede de demonstrar ou compartilhar com alguém este sentimento, por isso se torna mais exigente com você, porque se ao menos prosseguir vendo as tarefas de Claudia sendo cumpridas como sempre, independente por quem, sentirá menos a separação.

continuação…

 

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