Constantinopla-10

 

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    Eu corri, alcancei o pequeno grupo, coloquei Triciana no colo e senti a sensação de estar carregando outro bebê, um menino, menor e mais moreno. Olhei para Triciana para certificar-me que era mesmo ela.  Creditei ao calor e as emoções daquele longo dia, caminhamos até o sol se pôr e as estrelas surgirem pontilhando o céu de pequenas luzinhas que Mirna dizia serem vaga-lumes que os Deuses criaram para embelezar a noite.
    Chegamos exaustos, todos se prepararam rapidamente para dormir, mas eu, de tão feliz só orava agradecendo ao Grande Deus, segurando meu cristal rosa.  No dia seguinte, acordei como de costume e me pus a caminho do rio, mas desta vez observava cada palmo de terra, mesmo o sol ainda não ter raiado.  Precisava ter uma idéia de onde construir nossa casa, não poderia ser distante da casa de mamãe, nem muito próxima, pois no fundo intuía que o relacionamento de minha mãe com Suzana não seria tão harmonioso como com minha avó Celina.
    Meu pai havia construído nossa casa distante do rio, porque minha mãe temia que seus filhos se afogassem em suas águas, mas este não era o meu caso, eu amava o Rio Nilo e queria que meus filhos crescessem se banhando em suas águas.  Então me decidi, se Suzana concordasse o local seria tão próximo do rio quando permitisse às cheias intermitentes que faziam suas águas transbordarem e fertilizar a terra para que novas plantações fossem semeadas.
    A pescaria correu tranquilamente, pedi que Múrcio vendesse minha parte e depois me desse o dinheiro, me encaminhei à casa de Suzana que ficava próxima dali.   Ao me avistar, correu para fora, já pronta para me acompanhar.  Durante o trajeto conversamos alegremente e discutimos todas as possibilidades, ela me falou de sua vontade de avistar o rio das janelas de nossa casa e assim decidimos: nosso lar seria erguido entre o trajeto da casa de minha mãe e o rio, próxima o suficiente para avistá-lo e não ser atingida pelas cheias.    Comunicamos Tio Nuno e Tia Adelaide, que concordaram, apenas reclamaram da distância que ficariam de Suzana, mas mesmo assim endossaram nossa decisão.
    Depois de dois dias teve inicio a construção de nosso lar, a casa onde cuidaríamos das doze crianças intuídas por Menéas, o adivinho.  A construção demorou mais do que o previsto, porque ao contrário do que normalmente ocorria durante o verão, choveu muito, à ponto do barro que seria utilizado, se desfazer e não servir para ser modelado formando as paredes, mas mesmo assim, eu, Tio Nuno, Tio Elias insistimos utilizando mais galhos que o normal para sustentar a estrutura, isto fez com que as paredes ficassem mais largas e resistentes.
    Enfim, após vinte e cinco dias, seis homens trabalhando quase que incessantemente, nossa casa finalmente ficou pronta.  Ela tinha três cômodos, uma sala grande, uma cozinha e um quarto grande contíguo. O fogão de barro também foi construído, naquele tempo usávamos cozinhar utilizando lenha que também servia para aquecer o forno que estava acoplado ao lado.  O fogão como o forno ficou tão grande que Tio Elias comentou que daria para cozinhar para um grande exército, mal sabia ele que era exatamente para isto que ele serviria.  Ao final foram colocadas duas portas, uma dava acesso à sala e a outra à cozinha em frente ao fogão, a porta do quarto desembocava na sala.  Pintamos com cal as paredes, que ficaram tão brancas que nossos olhos doíam e as portas e janelas com betume preto, ficou maravilhosa.  Quando à vi pronta, mal contive minha alegria, Suzana e minha mãe nos visitaram no ultimo dia de trabalho e compartilharam da satisfação de todos, Suzana me disse:
    – Aimanon, agora já temos nosso lar e podemos marcar o dia do casamento para o mais rápido possível.
    Mamãe, como que movida por um sentimento de proteção e posse, retrucou:
    – Suzana, para que tanta pressa, Aimanon completa dezessete anos na primavera, porque não aguardam até lá, assim teremos dois motivos para comemorar.
    Ressenti-me da interferência inoportuna de minha mãe, já estava decidido que o casamento seria quando o verão se findasse e agora esta opinião descabida, eu tomei a palavra:
    – Mamãe, nos casaremos daqui a três semanas, prepare o que for necessário que eu já estou pronto e se for preciso me caso amanhã.
    Ela piscou rapidamente, como sempre fazia quando alguém a contrariava e disse:
    – Está bem, façamos como vocês desejam, no terceiro domingo a partir de hoje faremos a cerimônia.
    Tio Elias se adiantou quebrando o mal-estar, falou:
    – Meus sobrinhos, que o Grande Deus os abençoe, estaremos todos na casa de meu irmão Nuno no terceiro domingo para compartilharmos da felicidade de ambos.
    Mamãe novamente piscou forte, pois não admitia que em casa citássemos o Grande Deus, pois para ela existiam muitos Deuses e só a menção de algo tão distante de seu conhecimento a fazia retrucar sem piedade, mas ela respeitava Tio Elias e sabia que se ousasse contestar seria alvo de argumentos tão bem construídos que não teria como sustentar sua crença, por isso preferia impor o que acreditava aos seus filhos, não admitindo oposição, do que se dirigir ao seu irmão.
    Tudo ficou resolvido e todos os familiares foram avisados.  Minhas tias providenciaram esteiras, panos, panelas e um grande pote de barro para armazenarmos água para consumo diário.  Eu e Suzana nos encontrávamos todos os dias e fazíamos planos, mal contendo à ansiedade de partilharmos o mesmo teto.
    Prosseguia trabalhando, mas a relação com minha mãe aos poucos se alterava, ela reclamava que eu só pensava em Suzana que não me  importava com meus irmãos, nem em ajudá-la nos afazeres que antes nunca recusei, como limpar o fogão e rachar lenha, talvez ela estivesse com a razão, mas a sentia muito mais exigente e intolerante que antes, não escondia seus desencanto com sua futura nora, dizendo que Tia Adelaide não lhe deu a educação correta, pois não a ensinou a costurar, nem cozinhar e que se ela não o fizesse, teria que criar meus filhos.  Eu creditava aos ciúmes de mãe ao ver seu filho se casar e não lhe dava ouvidos nem dizia nada à Suzana.  Catarina muitas vezes me pedia paciência e me dizia que ensinaria à minha esposa tudo que sabia e que mamãe pararia de criticar assim que percebesse que Suzana era tão prendada quanto ela.
    O grande dia finalmente chegou, o domingo estava radiante, o sol prometia brilhar o dia todo.  Acordei cedo e vi minha avó chamar meus irmãos e minha mãe.  Ficou combinado que eles sairiam primeiro, bem cedo, e eu ficaria em companhia de Catarina e Lucius para me arrumar e me perfumar e depois iríamos.
    Assim que Antron partiu com parte da família eu me levantei e senti um ligeiro mal estar, estava tão ansioso que meus joelhos tremiam e minha cabeça girava, Catarina percebendo, correu ao meu socorro e falou:
    – Aimanon, vou preparar um chá de melissa para se acalmar, espere um pouco.
    Enquanto lidava com o fogão, me observava preocupada.  Assim que terminou me entregou a caneca de chá fumegante, sentou-se ao meu lado e disse com feições tão adultas que mal parecia ter apenas dez anos.
    – Irmão, sua vida já está a muito traçada, porque o Grande Deus sempre soube que seu destino seria se casar com Suzana.  Mamãe, por algum motivo que não sei te dizer tentará atrapalhar este destino, mas não se deixe abater, pois você e sua esposa tem uma grande tarefa a ser cumprida.

continuação…

 

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