Constantinopla-7

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     Menéas chegou e se assustou com meu estado deplorável, nesta época já tinha dezesseis anos, era um homem forte, tinha perdido as feições e o corpo de menino.  Pegou minha mão e orou ao Grande Deus, mas o que ele disse a seguir, apesar de trazer um certo alivio, não carregava nada que pudesse corresponder a algo já conhecido por mim, mas no fundo sabia que era verdade.
     – Aimanon – falou Menéas – você já é um homem feito, que trabalha duro a fim de sustentar sua família.  Agora o Grande Deus te pede para dar inicio ao cumprimento de sua missão nesta terra criada por ele, que é trazer à vida doze crianças especiais que trarão muitas alegrias e amor às suas futuras famílias e espalharão pelas terras distantes a noticia da chegada do filho do Grande Sábio – Deus – que  tudo criou e tudo sabe.
     – Agora descanse e quando acordar sua dor haverá passado, mas não deixe de pensar no que eu lhe disse, porque só quando cumprir o que o Grande Deus te pede, se livrará dela definitivamente.  Me deu um abraço carinhoso e se foi.
     Eu pensei, pensei, e não conseguia entender como aquela dor pudesse ser causada por algo tão irreal e que jamais havia pensado.  Adormeci. Sonhei com uma casinha branca rodeada com muitas flores e que me parecia ter vida, pois brilhava e pulsava como um coração.  De seu interior vi sair muitas crianças de todas as idades que sorriam, colhiam as flores e novamente entravam na casa.  Acordei, molhado de suor, de um salto me levantei e percebi que não havia mais dor, mamãe me deu chá de hortelã e me implorou que voltasse a descansar pois eu queria trabalhar nem que fosse na plantação, pois o dia ia alto e meus companheiros já haviam partido para a pescaria do dia.
     Contrariado, deitei-me novamente na esteira e ao fechar meus olhos senti uma sensação inédita de leveza e me senti flutuando, achei que a forte dor havia me ceifado o juízo, mas me sentia extremamente bem apenas me pareceu que não possuía corpo apesar dos pensamentos fluírem ininterruptamente.
     Durante todo o dia pensei nas palavras de Menéas – doze filhos – só agora me dei conta que eles deveriam ter uma mãe.  Os rapazes daquela época se casavam muito jovens, por volta dos dezessete anos e as meninas aos treze ou quatorze anos.  Eu já tinha dezesseis anos completos, mas nos últimos dois anos nunca me vi cuidando de outra família que não fosse esta, mas agora Menéas me faz esta adivinhação que mexeu com os meus sentimentos e me fez concluir que precisava tomar uma decisão de tentar encontrar a mãe das crianças.
     À noite estava totalmente revigorado, meus irmãos me mimaram, Catarina me deu uma rosa branca que disse auxiliar em conseguir tudo que desejasse.  Antron disse que as plantações estavam dando muitos frutos e que se eu quisesse poderia ficar mais dias sem trabalhar que ele cuidaria da família.  Agradeci e me emocionei com a responsabilidade demonstrada por meu irmão mais novo, mas disse que no dia seguinte voltaria ao trabalho.
     A pescaria do dia seguinte foi muito produtiva, como sempre, mas o meu pensamento se manteve distante à ponto de me ferir com o anzol, algo que nunca havia acontecido antes.  Naquela época já tinha o meu próprio barco e sabia todos os segredos da profissão, principalmente  como manejar  um anzol, mas as palavras de Menéas martelavam em minha mente.  Uma família só minha, filhos meus, a minha esposa, esta idéia foi tomando forma em meu coração e de repente senti que já os tinha, podia sentir os cabelos macios de minha esposa, sem mesmo ver seu rosto.
     Passou um mês do episódio com Menéas, a dor de cabeça havia desaparecido, mas algo em mim cobrava uma atitude com relação as adivinhações de meu grande amigo.
      Uma tarde, voltando do trabalho, encontrei minha casa cheia de tias e primos pequenos.  Minha mãe me disse que Tio Nuno, Tio Elias e Tio Percílio haviam retornado da última viagem e no próximo domingo haveria uma grande festa na casa de Tio Nuno em comemoração.
      Tia Mirna, a mais querida das irmãs de minha mãe, me disse que meus tios estavam muito orgulhosos de mim e tinham uma surpresa, portanto, eu não poderia deixar de ir até lá.
     Estas festas aconteciam quase todos os anos, era o momento da família se reunir, contar as novidades, enfim compartilhar amor e união.  O fato de meu pai e minha avó não terem nenhum parente em Constantinopla, fez da grande família de minha mãe a única referência que tive durante estes dezesseis anos e ela me fazia sorrir e agradecer, pois nunca vi meus tios brigando ou se maldizendo.  Mesmo Tia Adelane, apesar de triste, nunca trouxe nenhum tipo de desavença para a família.
      Agradeci a Tia Mirna o convite e disse que estaríamos na casa de Tio Nuno domingo pela manhã, mamãe separou porções de peixes que eu havia trazido e deu a Tia Mirna e Tia Ágata, que se puseram a caminho de volta, nos deixando muito felizes por podermos apreciar o carinho de nossos tios, tias e primos.
     Durante o último mês pensei em todas as possibilidades possíveis de encontrar minha esposa e uma pessoa não me saia da mente:  Suzana.
     Ela era filha de Tio Nuno e tinha quatorze anos, vivia em uma grande casa na cidade alta, onde grandes mercadores erguiam seus lares.  Tio Nuno era o terceiro irmão homem de minha mãe, ou seja, o sexto filho, mas o mais bem-sucedido, quando meus avós morreram tinha quinze anos e desde esta idade aprendeu a trabalhar com determinação.
     Acho que é o mais falante de todos os irmãos de minha mãe, sua casa é bem construída e vive cheia de mercadores e Sacerdotes durante o tempo que ele permanece na cidade.  É casado com Tia Adelaide e tem oito filhos, sete meninos e uma menina, Suzana.  Ela é doce e meiga, sempre fomos amigos, apesar de raramente  nos encontrarmos, mas nunca deixei de ter um carinho especial por ela.  Ao todo tenho vinte e cinco primas, mas Suzana é minha preferida, nas brincadeiras com meus primos eles me diziam que iria me casar com ela e este fato nos corava, mas no fundo sabia que seria concretizado.

        ***


continuação…


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