Constantinopla-50

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    Cornélius continuou :
    – Quando vovô era vivo, ele nos dizia que eram espíritos sofredores que precisavam de orações, por isso, sempre oramos juntos, para que eles se afastem de nós.
    Eu ouvi e me senti impotente, pois falar sobre a missão de um médium em difundir a palavra do Grande Deus é uma coisa, e agora essa, de espíritos sofredores, pensei que só amigos queridos como Menéas, Uruãn e vovó poderiam aparecer.
    Neste momento chegaram Catarina, Claudia acompanhada de Artur, – que a meu pedido veio também – Tia Adelane e Armanide.  Suzana serviu o bolo.  Todos se acomodaram ao redor da mesa de refeições e a reunião teve início. Fizemos uma breve oração, conduzida por Artur.  Ao olhar em direção à estante de livros, vi perfeitamente Minélus, Tio Nuno e Tio Elias aparecerem em pé e sorrirem para mim.  Sei que os meus três primos e Artur também os viram.
    Iniciei, dizendo:
    –  Pedi que todos viessem aqui hoje para esclarecermos porque algumas pessoas, sentem, veem, ouvem, pressentem coisas e acontecimentos que as outras pessoas nem de leve conseguem entender.
    Meu cunhado prosseguiu:
    – Nada do que falaremos aqui hoje tem a ver com essa ou aquela crença religiosa, se refere apenas a acontecimentos não corriqueiros na vida da maioria das pessoas.  Estas pessoas especiais, diferente das outras, mas ao mesmo tempo iguais, são chamadas de médiuns – ou seja – intermediários.  Esta família é muito diferente das outras, não é comum encontrarmos tantos médiuns pertencentes ao mesmo ramo familiar.
    A cada palavra eu observava o rosto de cada um dos presentes e traduzia como alivio em saber que não eram os únicos.
    Suzana foi a primeira interpelar:
    – Artur, então você está querendo dizer que o fato de sabermos acontecimentos futuros, de ouvirmos vozes que não são daqueles que se encontram no mesmo ambiente, nos torna médiuns?
    Eu interrompi, e respondi:
    – Sim Suzana, nós nunca conversamos sobre isso, mas eu já sabia que tanto você como Armanide tinham uma sensibilidade maior e recebiam instruções direto dos servidores do Grande Deus.
    – Então papai – falou Armanide – o  dia que te disse que seu amigo invisível se chamava Uruãn era porque também sou médium?
    Eu sorri para ela e disse:
    – Sim filha, mas isto é natural e não queria te preocupar, é exatamente para esclarecer a todos que não devem temer e nem tampouco se sentir uns loucos.
    Á partir daí, todos queriam falar e contar acontecimentos que jamais ousaram compartilhar com ninguém. Artur e eu tentamos acalmar os ânimos para não nos distanciarmos de nossos objetivos.
    – Acalmem-se – eu pedi – gostaria de esclarecer que ser médium também carrega obrigações, que vocês não podem fugir, sob o risco de se tornarem realmente desequilibrados, ou seja, em desarmonia com o resto da vida.
   Artur explicou a sinergia entre a vida terrena e espiritual, esclareceu as dúvidas de meus primos que, confesso, eram também minhas.
    – Muitas pessoas, por falta de se esclarecerem enquanto vivas e não acreditarem que a vida prossegue após a morte, quando se veem sem o corpo físico acabam se tornando espíritos errantes que vagam por suas antigas casas e locais que frequentavam enquanto viviam.  Elas sabem quem são os médiuns e são atraídas por eles, é por isso que muitos deles os enxergam como que desesperados e pedindo auxilio.  O correto é orar e pedir que eles encontrem o caminho da casa do Grande Deus.
    A reunião foi deliciosa, senti que todos aproveitaram muito e se identificaram com os temas abordados.  Tia Adelane agradeceu o nosso carinho diante de todos:
    – Aimanon, Artur, meus sobrinhos queridos, minha vida toda tentei entender o que ocorria comigo, sempre me senti diferente, ou melhor, perdida, sem enxergar nenhum motivo para esta sensação.  Quando comecei a namorar Osmar, tudo se aclarou, nós conversávamos sobre tudo, inclusive sobre este meu jeito diferente.  Com sua partida, me senti sozinha e abandonada, só depois da morte de Elias passei novamente a compreender o que ocorria  comigo.  Meu irmão sempre me acompanha, conversamos, me orienta, sei que ele está aqui hoje, apesar de não vê-lo, ontem me disse que viria trazendo Minélus e Nuno.
    Suzana me olhou espantada, exclamou somente:
    – Papai?
    Eu confirmei que os vi e meu primo Cornélius disse que Tio Nuno pediu que todos buscassem entender todo este mistério, pois cada um de nós, teríamos que utilizar o dom da mediunidade para auxiliar aqueles que precisassem, não só de entendimento, mas também de alimento.
    Esta foi a primeira de muitas reuniões que ocorreram ao longo de um ano.
    Quando Armanide engravidou de meu primeiro neto, tinha trinta e oito anos, ainda pescava, mas dedicava a maior parte do meu tempo a atender doentes na casa Menéas e participar de reuniões onde falava sobre os mistérios da vida.
    Uma tarde enquanto estava na casa do rio, após atender o ultimo doente, me senti mal, sentei-me na cadeira, esperei a tonteira passar, mas mal conseguia me manter em pé, os pensamentos se confundiam, minha vista turvou, senti que caí batendo a cabeça na quina da mesa, vi o sangue se espalhar pelo chão.
    Ouvi um grito – era Catarina.  Ela me colocou na esteira, estancou o sangue do ferimento, pediu que me tranquilizasse que ia chamar Artur.  Pedi que não fosse, pois precisava conversar com ela antes de partir.  Ela chorou e falou que desta vez estávamos errados que eu ainda haveria de ver meu neto nascer. Repliquei:
    – Os médiuns nunca se enganam, pois a fonte que os alimentam sempre sabe de tudo. Por favor, pare de falar e me ouça:
    – Chegou a hora de cumprir o que me prometeu,  cuide de Suzana e das crianças,  defenda-os como se fossem seus filhos.
    – Não se preocupe Aimanon – disse ela – vá em paz, que todos ficaremos bem.
    Senti uma leveza indescritível, sei que flutuei, Catarina chacoalhava meu corpo tentando me reanimar, mas já estava longe – papai, vovó, Menéas, Tio Nuno, Tio Elias, Ahimon, Minélus – muitos  parentes e amigos me aguardavam no Jardim Encantado, nos abraçamos e uma grande festa teve início.
    A partir daí tomei conhecimento de muitos outros mistérios, revi minhas vidas passadas. Tinha vivido três vidas anteriormente, todas tentando aprender sobre os mistérios que regem a vida e a morte, sempre tendo Menéas e Tio Elias como meus amigos e professores.  A vida em Constantinopla me foi concedida exatamente para prosseguir aprendendo e ensinando doze espíritos que em vidas na China e no Oriente Médio tinham sido meus amigos queridos e por ter morrido muito jovem não tive tempo de auxiliá-los como desejava.
    Suzana concordou em ser mãe das crianças, apesar de ainda não tivéssemos partilhado nenhuma vida antes.  Tio Elias, meu pai, em uma vida precedente, pediu para que ela aceitasse esta tarefa, de pronto aceitou.
    Assim teve início esta vida terrena, tão rica em aprendizado e crescimento espiritual, todos prosseguiram ainda por muitos anos, trabalhando e cumprindo suas obrigações.  Cada um de meus filhos, geraram inúmeros descendentes que se espalharam por todos os Continentes, hoje ainda, carregam o cerne da Doutrina Cristã.  Nossa família trouxe ao Planeta inúmeros médiuns de todas as categorias e que viveram em épocas muito mais tenebrosas e talhadas pela ignorância do que esta vida tranquila que acabo de descrever.
    Tanto Suzana, como Armanide, Túlio, Catarina, Claudia, Ruan e Artur sofreram as sandices decretadas pela Igreja Católica durante a Inquisição.  Minha filha Armanide foi a que mais injustiças sofreu, mas nunca fraquejou, sempre guardou sua certeza como médium e como filha de Aimanon e Suzana que a vida é um presente de Deus e deve ser vivida com amor e certeza que tudo que desejamos alcançamos.

 

                                             FIM

 

 

 

 

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