Larí… Laraí…

A senzala escura
Exalava o aroma da tristeza
O sorriso fácil
Dos tempos
Da Fazenda Santa Maria
A muito ficou para trás
Os três negros
Cochichando no escuro
Combinavam
Uma nova fuga…

Assim que o galo cantou
Todos se levantaram apressados
Os escravos já conformados
As velhas mucamas desdentadas
As jovens amas 
Que nunca tiveram outra vida
As crianças que serviam
De garotos de recado…
Apenas os três negros amigos
Dormiam a sono solto
Tramaram a fuga
Até altas horas
Agora o cansaço venceu!

O feitor Argemiro
Entrou na senzala
Enfurecido…
Chibatada prá todo lado
Gritava a plenos pulmões:
Corja de vagabundos!
Se não acordar por bem
Vai direto pro tronco

Tobias
O mais esquentado
Respondeu a provocação
Cuspindo nas botas
Do empregado desumano
Foi o suficiente
Para que o castigo
Ultrapassasse o dia
Adentrasse a noite
Na manhã do segundo dia
Negro Tobias acordou
Pairando sobre seu corpo
Não tinha mais fome
Nem sentia mais dor

Que coisa mais engraçada!
Pensou ele…
Será que morri?
Neste momento
Uma linda sinhazinha
De olhos azuis
Cabelos cacheados
Estendeu sua mão
Falou em tom suave:
Tobias, venha comigo
Precisamos conversar

E lá se foi ele…
Seguindo a jovem encantadora
A está altura
Já tinha quase certeza
Que havia morrido…
Um dia sua mãe lhe disse:
Assim que nós morremos
O espírito abandona o corpo
E vai ser feliz junto ao Criador!

Era isso!!
A sinhazinha o levava
Pro  céu!
Então tinha mesmo morrido!
Depois de muito caminhar
Pararam diante de uma
Grande porta
Um senhor de barbas brancas
Convidou-os a entrar
E lá foram eles
Um ao lado do outro

Chegaram finalmente
Ao destino
Um belíssimo Jardim
Tobias deslumbrado
Perguntou:
Aqui é o céu?
A Sinhazinha sorriu
E disse:
Não Tobias!
Aqui é sua nova casa!

De repente,
O escravo levou um susto
Abriu os olhos…
Feitor Argemiro
Havia jogado
Um balde de água fria
Em seu rosto
Disse sarcástico:
Acorda negro preguiçoso
O castigo acabou
Pega a enxada
E vá direto pro canavial!

Então era apenas um sonho?
Não, era desdobramento!
O Jardim Maravilhoso
Está situado
Em um lugar aprazível
Onde muitos espíritos
Que já viveram na Terra
Residem
Aguardando
Autorização para retornar

Negro Tobias
Mora lá hoje em dia
Mas este fato
Que acabei de relatar
Ocorreu nos idos de 1800
E foi nesta época
Que a amizade
Entre a sinhazinha
Bem nascida
E o Negro fujão
Foi selada
É claro que antes disso
Já se conheciam…
Senão não teriam
Tanto amor para compartilhar!

Grandes  amores
Grandes amizades
Grandes certezas
O dia raiou muitas vezes
As noites foram compartilhadas
Nada por um acaso
Tudo por um desejo mutuo
Aproveitem o olhar que acaricia
Ele carrega grandes momentos!

Poeta Estelar

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